O dia em que acaba a canção. (Leopoldo María Panero, Last River Together, 1980)

Quando o sentido, esse ancião que te falava
em horas de solidão, morre
                                         então
miras a mulher amada como a um velho,
e choras.
             Fica
órfão o poema, sem pai nem mãe,
                                                   e o odeias,
abominas o filho dependurado
como um aborto entre as pernas, balançando-se ali
como um fio que sustenta ou teia de aranha,
quando o sentido morre,
                                     como um menino
castrado por um cego,
ao amparo da noite feroz, da noite:
como a voz de um menino perdido uivando
                                                                 no vento
o dia em que acaba a canção, deixando
somente um pouco de tabaco na mão, 
                                                         e a cidade agora, as
cidades convertidas em vastas plantações de tabaco,
                                                                               e a mão
assombrada toca a boca sem lábios
o dia em que acaba a canção, e se perde
o homem que autonomeou-se alguém,
ao dobrar uma esquina, um entardecer sem música.
O dia em que acaba a canção a dor mesma
é somente um pouco de tabaco na mão,
                                                            e as palavras
são todas antigas, estrangeiras, e caem
da boca sem dentes como um líquido
parecido com a bílis,
                               o dia
em que morre o sentido, esse
assassino que ao crepúsculo falava e ao
insone sussurrava palavras e coisas,
                                                     o dia
em que acaba a canção miras
a mulher amada como a um velho, e
com a cabeça entre as pernas,
diante do mundo abortado, choras.




El día en que se acaba la canción

Cuando el sentido, ese anciano que te hablaba
en horas de soledad, se muere
                                              entonces
miras a la mujer amada como a un viejo,
y lloras.
            Y queda
huérfano el poema, sin padre ni madre,
                                                          y lo odias,
aborreces al hijo colgando
como un aborto entre las piernas, balanceándose allí
como hijo que cuelga o telaraña,
cuando el sentido muere,
                                     como un niño
castrado por un ciego,
al amparo da la noche feroz, de la noche:
como la voz de un niño perdido aullando en
                                                                  el viento
el día en que se acaba la canción, dejando
sólo un poco de tabaco en la mano,
                                                      y la ciudad ahora, las
ciudades convertidas en vastas plantaciones de tabaco,
                                                                            y la mano
asombrada toca la boca sin labios
el día en que se acaba la canción, y se pierde
el hombre que a sí mismo le daba el nombre de alguién,
al dar la vuelta a una esquina, un atardecer sin música.
El día en que se acaba la canción el dolor mismo
es sólo un poco de tabaco en la mano,
                                                          y las palabras
son todas de antaño, y de otro país, y caen
de la boca sin dientes como un líquido
parecido a la bilis,
                           el día
en que se muere el sentido, ese
asesino que al crepúsculo hablaba y al
insomnio susurraba palabras y cosas,
                                                       el día
en que se acaba la canción miras
a la mujer amada como a un viejo, y
con la cabeza entre las piernas,
frente al mundo abortado, lloras.

Poema de Leopoldo María Panero constante da obra Last River Together, 1980.

I

Na tristeza extrema
compasso de lesma
ritmo de orquídea
regem o dia

II

Diário de um corpo
inamovível: o coração
como mecanismo
de relógio
não comunga 
o sono da casa

III

Os ponteiros
não se importam
com o pouco tempo
do homem de negócios
que fita
de dez
em dez minutos 
o rolex.






               I

Tarde amena no parque
joga-se pipoca aos pombos
Não perguntamo-nos hoje
sobre nosso amanhã

              II

Regeneramo-nos como
um rabo de lagartixa
Não sem poucas cicatrizes
Fotografia feita na praça João Pessoa, Araçatuba/SP, mais conhecida como praça do rock.
Mais uma traduçãozinha de poemas do grande Leopoldo María Panero.

Mutação de Bataille

Sonhei em tocar a tristeza viscosa do mundo
na desencantada borda de um pântano absurdo
sonhei uma água turva onde reencontraria
o caminho perdido de teu ânus profundo;

tenho sentido em minhas mãos um animal imundo
que na noite havia fugido de uma espantosa selva
selvagem como o vento, como o negro orifício
do teu corpo que me faz sonhar
tenho sonhado em minhas mãos um animal imundo
e soube que era o mal do qual morrerás
e o chamo rindo da dor do mundo.

     Uma luz demente, uma luz que faz dano
encontra somente em mim o cadáver do teu riso
do riso que livra tua longa nudez
e o vento descobre nossa morte, semelhante
a esse orifício imundo que eu quero beijar: resplendor
   imenso
então me iluminará
e tenho visto tua dor como uma caridade
irradiando na noite tua forma ampla e imensa
o grito da tumba que é tua infinitude
                                                     tenho visto tua dor
como uma caridade, como se alguém deixara suavemente
um olho na mão branca que o mendigo lhe estende.

Panero, Leopoldo María. Poesía completa (1970-2000). Ed.Visor Libros, 2006.



unhas roídas
até a carne

os dedos 
ardem
para que
cada toque
signifique

Todo o vivido
vívido.
Não olvido
nada, tudo
tátil:

tua língua
quente
em meu 
ouvido.

O vivido vívido
tipo cena
cinema paradiso:
a vida um filme
dentro do crânio
do menino.
Toda a extensão
da lâmina
é espelho
para luz branda
dessa clara
manhã

Exige-se 
gume exato
mãos exímias
para que o animal
não sofra

É simples, disse-me,
feito uma chama
que se estingue

Faz-se uma fissura
mínima (destece a carne)
a ponta da faca
busca o coração

Instantâneo como o tesão

O que assusta
os espectadores
e torna cruel
o espetáculo
é a lenta agonia
os espasmos
os olhos vidrados


A urina 
corrói as tíbias 
dos monumentos.

A brisa
assobia nos lábios
de bronze
das estátuas.

Alimento-me
de momentos
assim.

Louvo a tarde
em um parque
porque arde
quando lembro
que estive
expatriado
em terra de estio
e sede.

Somente na saudade
brotam ramos
verdes.
Apenas a poesia
não cede.





Creio
no crepúsculo
que nos
cobre

(nós que estamos
expostos à vida)

Aceito 
que um dia
eu não esteja
vivo para ver
a silhueta negra
dos prédios
contra a luz
que esmaece.

Não aceito
que enquanto
haja tempo,
hoje por exemplo,
eu não contemple
a poesia
anterior
à palavra.

O pôr-do-sol
opõe seu ritmo
à fome insone
das engrenagens
que movem
cifrões.
Estudo rítmico
sobre a normalidade
da infância

O cão
sepulto
no quintal
A criança
exuma
o cadáver:
couro seco
sobre ossos

Enterrávamos
em terrenos
baldios
os
animais
mortos

Só 
o
peixe
azul
fora
jogado
no lixo.
Cápsula
contra
o colapso

Pílula
que
previna
intempéries

Não há remédio
penso
sem pessimismo

Se tens a pele
espécie de página
sinta na própria
a escrita 
da vida

Fabiano grunhe
Riobaldo
fala pelos cotovelos
GH conversa
consigo mesma
Bernardo traduz
o discurso 
da lesma

Ofereço abrigo

ao abrir
a porta
Não verbalizo
o convite
Sirvo duas doses
de whisky
com gelo
O olho
fala por mim
que te acolho
em silêncio.

Espécie de tratado:

na superfície
a beleza
dá-se fácil

Sem esfinge
ou enigma
Finge-se amiga
Pousa dócil
na página
a palavra

Mas há 
o avesso
a ser 
investigado
onde
vicejam
as vísceras



Decresce o viço
das flores no vaso

Indeterminável
o momento exato
em que tornou-se
árduo
o hábito
de substituí-las

O óbvio
deixou de
sê-lo
selou
a ruptura

Espectadores
assistimos
as cores acesas
tornarem-se negras

Caule e corola
compõe o cadáver
de olhos abertos
Para Joanna Skorupski.

I.

A bisavó polonesa
cultivava flores
e possuía um apiário.
Os dias consumiam-se
entre pétalas e folhas
e alvéolos.

Compreendia o ritmo vegetal,
como os xamãs
curandeiros.

O alzheimer é a chama fosca
dos olhos fixos.
O alzheimer é o não indagar
o azul sem nuvens.
É esquecer os usos
silenciosos da adaga.

Foda-se a desmemória.
Reinventemos para mim
um nome:
sou o estrangeiro que ama
flores incomuns.
As inscreve na própria pele
para que não sejam breves
como os relâmpagos.

II.

Na página é branco
o silêncio.
Orno a monocromia
com estilhaços antigos,
colhidos na autópsia
da criança.

Havia o fogão a lenha,
o termômetro de mercúrio
em forma de galo.
Vasos, muitos vasos
na casa que chamávamos
chalé.
Na parede um brasão polonês,
águia
sobre um fundo rubro.

A Virgem negra 
de Czestochowa
abençoa
os herdeiros do holocausto.

Lembro dos livros
manuais de botânica.
O quadro
com borboletas mumificadas.
E no bojo de um vidro
o alvíssimo
cisne de açúcar
capturado
nas bodas
já esquecidas.





Uma tradução minha publicada no blog Poema Diário de Daniel Russell Ribas

http://pordiaumpoema.blogspot.com.br/2014/03/ana-maria-moix.html

Ana María Moix

 Fechei a porta. Desci as escadas. Deparei-me com vigia e se partiu o silêncio. Supliquei a ele que não dissesse, mas disse: Hoje não virão, senhorita; não os atrai. Ainda não havia retornado, na esquina o ouvi falar ao guarda da taberna: essa moça está louca. Todo dia, às doze, desce para abrir a porta aos mortos. Tive que deter o tio Jacobo que queria desafiá-lo a um duelo. Tio Jacobo morreu antes dos 36 e não estava acostumado com a má educação dos vigias ao tratar as senhoritas.


Cerré La puerta. Bajé las escaleras. Tropecé com el sereno y se ronpió el silencio. Le suplique com um gesto que no lo dijera y lo dijo: Hoy no vienen, señorita; no les toca. Y aún no había vuelto yo La esquina oi cómo Le iba com el cuento al guarda de la taberna: Está loca esa chica. Cada día, a las doce, baja para abrir la puerta a los muertos. Tuve que retener a tío Jacobo que queria retarle a um duelo. Tío Jacobo murío antes del los 36 y no estaba acostumbrado a la mala educación de los serenos para com las señoritas.

Cortejo de animais
fareja meus poros.
A fêmea sabe-se
corola acesa.
O macho compreende
o odor a quilômetros.
Espécie de cio
inscreve-se na pele.
Cortejo de animais
fareja meus poros.

Há lascívia em ler
o aroma do livro novo.
Há lascívia no sommelier.
Há lascívia em colher
uma folha de chá
e cheirá-la.
Em fechar os olhos
e respirar o hálito
com profundos haustos.

Exploro.

Dedos 
tateiam
tuas pétalas,

ornados

cada poro
alvéolo
do olor.

Ao vê-los
efêmeros,
logo inodoros
insípidos

apenas dedos

colho teu rastro
maturo o fruto
sirvo-o
ao meu olfato.
Percebo:
perfume
sumo
lume
selvagens.

Sigo
o
signo.
Animal
farejo.

Cortejo 
de palavras
traduzem:
pele
especular
onde re
vivo
o 
espetáculo,
teu
sexo.




After Gottfried Benn - Leopoldo María Panero

After Gottfried Benn

Imitação póstuma de Gottfried Benn
"es gibt nur zwei Dinge: die Leere
und das gezeinichte Ich"
(GOTTFRIED BENN, Nur Zwei Dinge.)

Mais uma vez erraste, o Fracasso
não possui limites - tu sim.
Somente esta obscura tristeza sem 
voz - enquanto, por perto, ouves essas vozes:
poderia-se dizer que estás louco
                                                como os
que ouvem outras.
                          A habitação
escassa, tediosa, está plena
desse inefável mal cheiro - ali
somente o sussurro sufocante,
                                            sempre
da voz de Pilatos, selando a boca.
                                                  Ali
na escuridão, te ajoelhar, sem deixar de aspirar
a pestilência que não nomeia a ninguém, a
                                                               pesada
tristeza sem voz - ajoelhar-se
para rezar, outra vez, a oração
maldita. E te masturbares ouvindo
em teus ouvidos tua própria voz que diz a
uma bolha cega que estourará,
                                             que diz
e dirá - "me golpeie,
me pegue, por favor.
Por favor".
                E se for assim
realmente, logo, a carne
ridiculamente machucada e a vergonha.
                                                          E a habitação
e em um recado, os livros lidos,
a só
essa tristeza sem voz.
Morrerei nesta cela.

Poema da obra NARCISO EN EL ACORDE ÚLTIMO DE LAS FLAUTAS (1979).

O Circo, Leopoldo María Panero.

O Circo

Dois atletas saltam de um lado para o outro da minha alma
lançando gritos e conversas fiadas sobre a vida:
não sei seus nomes. Em minha alma vazia escuto sempre
o balançar dos trapézios. Dois
atletas saltam de um lado para o outro da minha alma
contentes de que esteja tão vazia.
                                                     E ouço
ouço no espaço sem sons
uma e outra vez o rumor dos trapézios
uma e outra vez.
Uma mulher sem rosto canta em pé sobre a minha alma,
uma mulher sem rosto sobre minha alma caída,
minha alma, minha alma: repito essa palavra
não sei se como um menino chamando sua mãe para a luz,
em confusos sons e com prantos, ou simplesmente
para mostrar que não há sentido.
Minha alma. Minha alma
és como a terra seca onde pisoteiam sem ver 
cavalos e carroças e pés, e seres
que não existem de cujos olhos
flui meu sangue hoje, ontem, amanhã. Seres
sem cabeça cantarão sobre minha tumba
uma canção incompreensível. E se
repartirão os ossos da minha alma.
Minha alma. Meu
irmão morto fuma um cigarro junto a mim.

Poema da obra Narciso en el acorde último de las flautas (1979).
I

Estendem-se as pálpebras

sobre o sono das órbitas.

Não será sudário

o lençol ordinário
que simbolizou teu óbito.

O lençol cobrirá o leito

de outro enfermo,
o ciclo:
enfermaria lavanderia 
enfermaria.

Dedos estendem as pálpebras

sobre as pupilas fixas
do morto.

Eu, menino que simulava 

suicídios, sei
ser egoísmo desejar
a imortalidade
mesmo 
a quem se ama 
muito.

O poeta sente a música

das palavras
sob as pálpebras
cerradas.

II


Lástima

is
last
poem
que traduziria
a extrema experiência
murir
con el cuerpo.

Houvesse tempo

diriam ser
delirium tremens

Foda-se o paciente

ser poeta.
Plantonistas leem o prontuário:
histórico psiquiátrico,
miligramas prescritas
de medicamentos,
número do leito.
Foda-se o paciente
ser Leopoldo María Panero.

língua do meu gato
música áspera:

a criança triste cresceu
aos trinta não tinha
lembranças
de ouvi-los trepar
no quarto contíguo

só a poesia os sabe
carne e ossos.
missa não era costume
mas acontecia, às vezes
de unirmo-nos ao cardume
ouvir o pároco

eu criança
parco vocabulário
pouco convívio
com as palavras
para traduzir:

insossa
a hóstia


I

Paul Celan 
encena-se
punhal
corpo lâmina
na carne
do Sena.

Cena: 
luzes de Paris
flutuam na superfície,
o poeta
submerso.

II

Alheio ao fluxo
olhar fixo
em outra margem
submerge
no ritmo
da imagem:
o sangue estanque
tinge o lábio
de azul claro.

Intervalos
regulares de silêncio
e ruído, o rio
soa nos ouvidos
do poeta:
corpo sonoro
palavra
no crânio
que naufraga.

III

Pão lançado aos peixes,
dissolve-se nas águas.

Fragmentos de uma cidade:

disse-me o professor de artes,
havia apenas um piano de cauda
em toda a região;

camponeses de ascendência alemã
cultivavam erva mate e tabaco,
a exposição aos agrotóxicos
os induzia à uma tristeza abissal
e consequente suicídio;

protegíamos o pomar das geadas,
os velhos liam no frio
de um crepúsculo sem nuvens
o prenúncio;

num retângulo do quintal
a vizinha prepara a terra
para uma horta, sob
os casacos de lã eu soube
ela não tinha um seio;

manhãs de sol morno;

no quarto livros nunca lidos,
contemplava-os ali totens eretos
plenos de sangue sêmen febre
pau duro pulsando signos.
linha e agulha
não suturam
a fissura
que fiz

técnica cirúrgica
alguma estanca
o fluxo
até que 
o estômago
hematófago
esteja
saturado
Branco rosa lilás
Antes de calçar
Laetitia observa
- Não é fabricado na China.

Made in Vietnam
Fabrique au Vietnam

A mão de obra é baratíssima
Importação de matéria prima
Exportação do produto pronto
Tudo multiplica o lucro
da multinacional americana

E onde está a Poesia?

Na face no avesso
em toda superfície
da caixa, quero impresso
o poema Wietnam
de Szymborska

No corpo do tênis
com técnica stencil
a garotinha que
corre
nua
coberta de napalm



Chamamo-nos pelos pseudônimos
chaga nada sacra & jardim em chamas

Sentou-se aos pés da cama:

un ángel con hocico de caballo
y huesito traspasado en el lábio
lee el livro de Lorca
un poeta en nueva york 
a una calavera verde

Passado o transe, pergunta pelo banheiro
A calcinha trama-se aos tornozelos
Ouço o jorro de urina
Os dedos carregados de zelo
retiram o floco de papel higiênico
grudado no clitóris

Doloroso ter a consciência de que se ama

Sento-me aos pés da cama
Desconstruo em gomos uma tangerina
A observo folhear o heterônimo que tange
rebanhos, embora ambos preferimos Álvaro
de Campos

Doloroso ter a consciência de que se ama

Carregando migalhas de biscoito recheado 
uma fila indiana de formigas vem outra vai.

Em meu curriculum vitae
escrevi nas características pessoais:
bom relacionamento interpessoal
e trabalho em grupo.

(queria escrever após um asterisco:
leio muitos livros, me traduzo 
pela personagem gregor samsa)

Dezenas de formigas se acumulam
no copo vazio de coca,
mas levam o açúcar de forma ordenada
para sua toca.

Acrescento ao meu currículo
importante característica:
a palavra comunicativo.

(queria escrever após um asterisco:
leitor dos poetas-monges-eremitas
chineses da dinastia tang)


Uma metáfora para a morte:
em trinta de maio o sangue estanque.
Eu nascituro em primeiro de junho,
ou seja, não coabitamos o mundo.

Ouvi o nome Smetak 
numa canção do Caetano.
Li o nome Smetak
estudando a tropicália.
Habitei a Bahia: o mar quebra,
o mar é ritmo, o mar é carne
líquida.

O nascimento é sonoro.
Crianças são sonoras.
O sexo é sonoro.
Em tudo o som bruto.

Corolas soam seus acordes
em agudos Van Gogh,
Iberê em graves.

O silêncio é tátil nas partituras.
Eu menino monossilábico,
no cérebro a sintaxe é célere, 
como tivesse três cabeças 
feito Cérbero. 

Smetak sabes o mistério da música
atabaques invocam divindades,
o ritmo tange o êxtase.
Smetak não tenho talento
para instrumento algum
a sonoridade que me cabe
são as palavras.




canavial
e pasto

montanha
nenhuma

só a poesia
eleva 
nossos olhos
ao signo

pássaro.



Embebedou o poeta
cognominado imortal
banido na terra.

A lua erra
pelo azul 
sem nuvens,
tão ébria
quanto Li Bai.
A mesma
lua,
musa 
de Li Po,
em meu pobre
poema sobre
poças
de chuva
e silêncio.
Todas as amigas
haviam ao menos
operado as amígdalas.
A musa nada,
carne intacta.

Idealiza que a poesia
deslocará da função cotidiana
a palavra lâmina.

Mas o poeta
faz do sangue
pétalas líquidas.
Não decapita 
a musa
completando o ciclo.
Só contempla 
o seppuku.

Versa que o amor
a  cure.
Não celebra o ritual
com belo e cruel
haiku.

Musa
realize-se:
sobre a pele
cicatrizes
cruzem-se
feito ideograma.
nas aulas de literatura
falar menos 
em estrutura
e mais:

o belo
é que riobaldo
amou
diadorim
antes.
da varanda
a criança cospe
observa a queda
livre da saliva

atração do abismo
pra mim é o ritmo
da palavra:
abissal.