o poema no meio

do livro espesso

poesias reunidas

eclode a exclamação

poemaço! Precisa

ser lido diariamente

(não como oração

mas devorado

é alimento)

para não 

o perder de vista

improvisa-se um

marcador de página

serve o retalho

um palmo mais ou menos

da fita de cetim azul celeste

o nó simples na ponta

impede que naufrague

então o poema pode

ser lido e relido

sequência digna

de analogias

com o pugilismo
lançado o cigarro
com ainda meio
centímetro de tabaco
queimando solitário
o fundo escuro do
asfalto ressalta
a fina fumaça branca
ascendendo em espiral
dedos o recolhem
com tamanho zelo
o verbo colher
traduz melhor
a beleza do ato
que antecede as
duas profundas
tragadas dadas
como se emergisse
em busca de fôlego
da metáfora mar
de gente onde
todos são anônimos
mas a indigência
é o anonimato mais
profundo até abissal
então encontrar uma
ponta de cigarro
é precioso
para quem
naufragará de novo
ao próximo passo
na metáfora
mar de gente

   Estão ainda deitados na penumbra. A luz do estacionamento esgueira-se pela mínima brecha da janela, impedindo a escuridão absoluta. No quarto, legível a silhueta dos móveis, noite verdadeira, treva, intransponível aos olhos. Ainda deitados, sentindo a respiração arrefecendo. O peito estendendo-se até o limite pela necessidade de ar, e descendo lentamente. A pele coberta pelas gotículas de suor, não escorriam, eram corolas afloradas sobre os poros. O tempo flui imperceptível.
   Ele mantém o olhar no teto, vendo sem querer desvendar as sombras projetadas, não importa a que desenho assemelham-se, gosta de compreendê-las como formas se dissolvendo, a rigidez dos ângulos domesticadas. Ela sente o sêmen refluir dentro do corpo. O líquido morno percorrendo o caminho inverso, lento, sem a urgência com que jorrara o mais fundo que pôde. Ele sente seu pau ainda intumescido, se levantasse da cama, agora estaria ainda ereto. Ai, vou tomar um banho. Ela exclama antes de beijá-lo no rosto, que permanece até ouvir o som da água o despertar da imobilidade.
   Na última vez que trepamos, dormi sem fazer a oração diária, como se a vida não pesasse sobre os pensamentos.

  
Espectros não arrastam os pés
Não calçam o par de all star surrado
Espectros não tem contato físico com a superfície

Enleado nos poemas que li piso o percurso
O estudo das texturas ensina onde 
o passo deve pousar suave 
onde pode se entregar mas nem por isso
o passante escreve publica enriquece entra
para a lista dos dez mais com um livro
de autoajuda sobre a arte de caminhar
Os sete dos alcoólicos dos narcóticos
é tanto passo certo prescrito: olhe
onde pisa e também o pisar em ovos
o passo em falso os passos da dança
o passo a passo das receitas dos manuais 
Cada um pise os próprios
É bom estar bem próximo 
ao rés do chão enleado 
aos poemas que li
consciente da estrutura óssea
muscular verbal que me conduz
pelas ruas pensando a palavra espectro
acolhendo seus ecos em outras
excitado pela indocilidade
da poesia
que não tem passo a passo

Reorganização sintática (e moral)

de algum modo imaculado
de modo algum imaculado

ao primeiro sopro
revoam em bando
pânico de asas
soa em uníssono
o uivo das árvores
os longos cabelos
que açoitam a tarde

olhos ocos
nenhum pássaro
restou sob
tuas pálpebras

         *

os mais velhos
transmitem os
significados
dos ventos
cada direção
sopra um
presságio

       *

na infância asmática
aprende-se que
a raiz grega 
da palavra alma 
é pneuma e também
significa respiração
a escola ensina
pneu é abreviatura
de pneumático
a sua maneira
o aluno compreende
quão foda é o poema 
pneumotórax
do manuel bandeira
ainda uma pneumonia
antes da adolescência
soprando trombone de vara
e sonhando a tuberculose
do século dezenove

              *

o vento varre
verdades erguidas
somo esse sopro
ao fôlego do poema



Os afogados
reúnem-se
em cardumes

Pela palavra
investigar a 
reação do corpo
à beleza desoladora


O primeiro esforço
é não ruir sobre si
como a onda um
passo além do ápice

Após noites seguidas
emergindo de 
pesadelos
com asfixia
Compreender
nadar para
longe do naufrágio
buscar a margem
é frágil salvação

Natural  a sede
por alguma remissão
Cogitar associar-se
aos que militam
pela preservação
das baleias
Fumar baseados
embarcado próximo
ao oceano ártico
com a tripulação babel
Registrar no
diário de bordo
Mishima Bashô
samurais de Kurosawa
mangakas underground
cerejeiras floridas
nem todo japonês
caça baleias

Pela palavra
conhecer a re
ação do corpo
à desoladora
beleza: ao
enredar-se
nos ossos
há que
ouvi-la
ecoar
os afogados



Palavras sobre a percepção do tempo
através da analogia com cavalos:

na tristeza o lento trote dos ponteiros
no ritmo oposto o galope rumoroso

o pudor herdado 
aconselha a 
desviar os olhos
do longo falo
que se estende 
arqueado ao
verde pasto

O fluir pole aos poucos
as matérias pétreas
Não o breve pouso
mantenha os olhos
sobre o corpo do poema
(meu bem, releia Ana C.
aqueles versos 
do filete de sangue
quando concordamos que
a relação visceral é
uma leitura possível)
Insista, Paz escreveu
a palavra no poema
oferece resistência
Aceite o duplo embate
com a linguagem
e consigo mesmo
Perceba: somos
a espinha dorsal
Contra o momento banal
a poesia incide 
a luz permanente
irmã daquela que exalta
o semblante dos santos
Compreenda: somos
a medula
de cada palavra
Então, a poesia
é também para que 
suportemos a noite
O fato de sermos lançados
na situação extrema
serve de forte 
argumento de defesa
O poema não condena


O desarraigado
exigiu mais esforço
que o previsto

Músculos tendões
ossos em uníssono
tensos ao extremo
esculpem a superfície
das mãos que agarram
Demonstram o quão 
difícil é desarraigar

Raízes emergem
embebidas em sangue
com vestígios de carne
gordura e pele

Fossem palatáveis
poderiam ser
lançadas aos cães
mas nem espécies
necrófilas
aproveitariam
esses restos
Flui reflui 
a linha
de formigas
entrando
e saindo
do pássaro
já desorbitado

No poema
sem pudor
nomeia-se
seiva
porque não há
palavra ou alimento
interdito

Ao sexo liquefeito
que embebe a língua
ou lança-se contra
o céu da boca
oferece a luminosa
palavra: sumo

Desenvolve-se assim:
o buraco aberto
com as próprias mãos
acolhe a imagem
lançada como semente
num átimo cresce
ramifica-se envolve
as vísceras sobrepõem-se
ao pulso asfixia todo
outro pensamento

Precisa ser escrito

Antes da semeadura:
o corpo não
detém o passo
somente vê
migalha de tempo
suficiente para
o pássaro morto
inscrever-se como
imagem

Após a colheita:
uma variação possível
exemplo de anti-milagre
o pássaro debate-se
como despertando
de um pesadelo
mesmo sem olhos
lança-se ao azul
As formigas incrédulas
tentam entender
a moral da fábula
A cigarra espectadora
fuma um cigarro oculta
no claro escuro das folhas
escarneia estridente:
agreguem ao vocabulário
a palavra regicídio



um automóvel vindo 
com o farol direito apagado
lembrou-me Camões

lentos pelo efeito do êxtase
dois anjos contemplaram
o naufrágio de Dinamene

inebriados agradeceram
ao céu soando nas águas
o Senhor seja louvado
pela jovem chinesa
dançando o belo
balé das algas



enfatizar
a recusa
sublinhá-la
para que não
reste dúvida

ferir o
silêncio
vociferar

proferir 
é pouco
não traduz

atear
hastear
a recusa

acompanha-nos
pelas ruas

intensa
mais que
lembrança
acesa

não revoa
homogênea
ao bando
de palavras

merece a grande metáfora:
coração em chamas

expor a recusa
lâmina ao sol

seja a recusa
presença política
voz somada
galos de joão cabral
amanhecendo
o poema


un coup de dés 
é sim imprevisível
Mallarmé, diferente 
do golpe político

podemos prever 
a democracia enferma
os frutos cedo apodrecidos
as mãos inábeis em cultivar
a terra que mesmo fértil
não produz o suficiente


a cura é a recusa de cada um
a vacina na palavra que não
vaticina o silêncio escreve 
esquiva e contragolpe
no poema lido
e sugerido aos amigos
na interrogação reflexão
no ato na desobediência
inclusive a civil

desculpe Mallarmé
continuas livro de cabeceira
mas o desejo de reler
Brecht está aceso


Posso arrancar os olhos agora sem recear a manhã seguinte (nenhum sentimento de culpa dilacerante, nem crise espiritual). Fechar os olhos não é suficiente, preciso arrancá-los e percorrer teu corpo com o olfato reescrito faro. Sem recear a manhã seguinte, quando não estejas para ser meus olhos. E chute móveis, apalpe paredes, mije no chão, queime as mãos ao coar café, não encontre o açúcar.
Delirar com violência. 
Ferir o ritmo monocórdico soando nossa foda.
É necessário arrancá-los. 
Sem recear o significado abissal da cegueira que compreenderei na manhã seguinte ao tatear o caos da estante em busca do livro, dentro o poema, única salvação possível para quando esmaece o desejo.
Rimbaud deu cores às vogais 
o poeta lê palavras acesas 
como nomes em neon
fast food azul drugstore verde 
o curto percurso 
pelas ruas noturnas
escreve o inverno
próximo aos ossos
hotel em vermelho 
lembra que 
és sempre 
estrangeiro
de alguma forma
não importa 
onde estejas
une saison en enfer
illuminations
estiveram bastante tempo
enquanto havia cabeceira 
em quartos provisórios
lençóis não recendem suor
há sempre um exemplar
do novo testamento 
de capa preta ou cinza







dentro do poema posso
nomeá-lo abscesso
o buraco aberto no chão
segundo a finalidade
para a qual foi cavado
convém chamá-lo cova
o monte de terra escura
acumulado nas margens
exala um cheiro fresco
arrefece  febre dos pés
a exaustão pesa nos braços
dizer que estás 
morto de cansaço
soa como humor negro
recolocada  a terra
uma grossa cicatriz
marca a superfície

o fio viscoso
seguiu unindo
um corpo ao outro

à distância de 
dois palmos
o desenlace fez
pousar sobre o lençol
sem ser absorvida
pelas tramas
a líquida linha

já de bruços
pensa: a palavra
ponte aproxima
as margens

nossa cidade
não é trans
passada por
rio algum

os suicidas
lançam-se
dos viadutos

tudo bem porque
diz-se que 
o trânsito
flui
estilhaçar é
uma forma
indócil de
multiplicação

a gota 
fragmenta-se
em outras

hoje a
primeira
caiu contra
um chão
diferente
de ontem

embora 
continuem
surdos à sutil
explosão

o mundo é outro

a gota des
construiu-se sobre
uma superfície
que ampara
de modo diverso
o passo dos homens

a questão é a seguinte:
compreenderão 
a chuva como 
bom augúrio 
ou dilúvio?


Não são, querido K,
palavras para uma carta
antes escrevo a mim mesmo 
sobre a ferida deste dia

Chove
Bom para continuar
no calor da cama
Mas estou de pé
bebo meu café com leite
e só, nem pão ou bolacha
Nada como pela manhã
(Será a causa da náusea
das primeiras horas?)
Amanheci numa democracia
sem presidente eleito pelo povo
Nos impuseram outro!
Compreende meu amigo?
Fizeram do nosso voto 
uma barata
e sem piedade 
pisaram






madame H. fora aguda em suas investigações
forjou a própria lâmina criou o próprio método
o instrumento pronto interrogou a consistência
partindo da superfície onde o desejo fulge
luz sobre águas inquietas
passo a passo mais incisiva
desvendando textura temperatura tons

madame H. anota tudo
tem o hábil olhar que lê
mínimo movimento em meio à selva
madame H. busca o nome
pulsando imperceptível
entre tantas palavras
a mim parecia impossível
o lume débil (menos que vagalume)
súbito raiar desabando 
as pálpebras incrédulas

madame H. impassível 
ante meu espanto
sustenta o cigarro 
queimando sereno 
como um incenso
no bojo da taça
o vinho não vibra
maciço concentrado em si
como o olhar de madame H.


Leopoldo María Panero: seis traduções dos Poemas do Manicômio de Mondragón.




Em minha alma apodrecida exala o fedor do  triunfo
a cavalgada do meu corpo em ruínas
onde minhas mãos para mostrar a vitória
se agarram ao poema e caem
e uma velha mostra o cu rosado
à vitória
             pálida do papel em chamas
nu, de joelhos, tremendo de frio
em atitude de triunfo.


***


Brindemos com champanhe ante o nada
salto de um saltimbanco sobre o aço escrito
onde a flor se desnuda e habita entre os homens
que dela se riem e desviam o olhar
sem saber ó ilusão que é também ao nada
que a lançam e a cada jogada
se estende a Morte diante do jogador nu
e anões jogam com cabeças humanas.


***


OS IMORTAIS

Na luta entre consciências algo caiu ao solo
o fragor de cristais alegrou a reunião.
Desde então habito entre os Imortais
onde um rei come diante do Anjo caído
e flores semelhantes à morte nos despetala
lança no jardim onde crescemos
temendo que nos chegue a recordação dos homens.


***


Chega do céu aos loucos somente uma luz que fere
se abriga em suas cabeças formando um ninho de serpentes
onde invocar o destino dos pássaros
cuja cabeça regem leis desconhecidas para o homem
e que governam também este trágico lupanar
onde almas se acariciam com o beijo da porca,
e a vida estremece nos lábios de uma flor
que o vento mais sedento empurrara sem cessar pelo solo
onde se resume o que é a vida do homem.


***


Do pó nasceu uma coisa.
E isto, cinzas do sapo, bronze do cadáver
é o mistério da rosa.


***

Debaixo de mim
jaz um homem
e o sêmen
sobre o cemitério
e um pelicano dissecado
nunca antes criado.
Caído o rosto
outra cara no espelho
um peixe sem olhos.
Sangue candente no espelho
sangue candente
no espelho
um peixe que come dias pre-
sentes sem rosto.


Traduções de Gustavo Petter, a partir da obra Poesía completa (1970-2000), Visor Libros.









mesmo decapitado
o bibelô mantém
seu sorriso bobo

destoa dos
cacos afilados
espreitando o 
próximo passo
do assassino


desde o começo
fora colocado na
parede do quarto
acima da cabeceira

o anjo da guarda

corpo e asas de gesso
suavemente coloridas
em tons de azul e rosa

a queda foi ruidosa 
espalhou brancos 
fragmentos sobre 
a madeira escura 
do chão encerado

compôs uma constelação

a criança soube
que era má
estava abandonada
à própria sorte

mas o poema dirá
a toda criança que
acidentes acontecem
Estavas submerso em alguma memória? 

(olhos devolvem a interrogação)

Durante o interregno entre uma e outra palavra? Porque o hiato, o breve abismo é terreno fértil. Nele, entre o ato banal da personagem, Clarice ou Marcel mergulhar-nos-ia em páginas e páginas de introspecção. 

Usou uma mesóclise? 

Meu bem, adentrar literalmente o corpo não lhe revela a essência. E então, onde esteve durante teu silêncio? 

Sentindo a respiração arrefecer, tivesse um cigarro, contemplaria as espirais dissipando-se próximas ao teto. Encenaríamos a clássica cena: fumar após o amor. 

Que eufemismo brochante! Prefiro a palavra foder. Transmite energia à frase. Ateia cores quentes à língua.
Sapatos de salto alto secam esquecidos na janela. Incidia sol contra o quarto andar. A luz 
estilhaçava-se sobre falsos cristais. 
Agora, sob a sombra, o olhar apagado de pantera cativa. Sim, há Rilke na estante. As Cartas e Elegias em edições bilíngue. 
Dentro de casa pisa descalça. Solas leem a textura monótona das lajotas. A temperatura reptícia da cerâmica não mais arrefece a febre dos pés. 
Com a poesia compreende: precisa calçar outro chão.  
Tentativa de mensurar o momento:

Será tema de romances, as personagens viverão seus conflitos, imersas na imensa sombra.

Poemas erguerão imagens afiladas, texturas indóceis lidas pelo tato espantado. Sabores impalatáveis lamentarão à língua que a doçura habita um futuro incerto, pode o fruto antes apodrecer, secar.

Será escrita a fábula sobre os ponteiros que se recusam a medrar as horas, tão absurdas. Em vão homens olham os pulsos, buscam relojoeiros. As sutis engrenagens não compactuam com a brutalidade do tempo em que estão submersos.

Tentativa de mensurar o presente:

Na primeira manhã, todos os leitores de Kafka sentiram-se despertar como Gregor Samsa.


corolas eclodem
feito disparos

súbito assim entre 
a monocromia
compreendo: só
o poema importa

no poema permanece
intacto o instante
quando o flash
da rolleiflex
reescreve o corpo
em luz e sombra
contra a impermanência
que assombra cada
passo dos ponteiros

o poeta não possui
(rolleiflex leica polaroid)
outro instrumento
que as retinas
e a palavra retina
e a palavra nudez

porque as palavras retinem
porque mais próxima ao poema
está a câmera-vulva de Buñuel




Submerso no corpo
insiste o sonho
não silencioso
como as sementes
antes animal
energia pura

poema em que
as feras de Rilke
mantêm-se acesas

Não fora o sopro
mágico acaso
princípio do voo

Pousa os ouvidos
bem ao rés da pele
latente desejo
o ritmo evoca
palavras indóceis

As moscas tecem
noturno manto
tecido vivo
como a pele

Sombra sonora
ebulição
a coca-cola
ecoam da
imagem imã:
animal morto

desde Baudelaire
própria ao poema

Estilhaçar a compacta
escuridão é bem simples
A criança curiosa
consegue com um graveto

Grava nos olhos
impressões sobre
a morte tátil:

é reescrita das formas
é palatável aos vermes
é palatável ao tempo
não há vestígios da alma
fede mais sob o azul


Fui convidado pelo editor do blog Poesia, vim buscar-te para traduzir poemas da portuguesa Maria Azenha para o castelhano. Dia 31 de Março foi publicado o primeiro deles, eis o link: https://poesiavimbuscarte.wordpress.com/2016/03/31/%E2%96%91-i-2/


I.

Recuerdo la rosaleda del tiempo, las esmeraldas, sus memorias
el verde es el color de los árboles seculares impenetrables
oigo la noche cantar por los campos dentro de los cedros
la muerte enciende dos candeleros moviendo la pupila de los ojos

de un lado para el otro hay un agitar alto de crateres
la luna abre las sábanas de la luz a los labios de los volcanes de la noche
poemas que entrañanse en otros poemas dentro de la brisa
y se hunden las voces de los jardines de las corolas
luz inagotable mejilla del agua
angeles de la eternidad pedaleando para siempre
cantando en violines aéreos en el perfume de los lilas

me encuentro en posición de la llama que se desliga del cuerpo
soy una paisaje vertical y grande
atraviesada por un instrumento cirurgico

soy un enjambre de sonidos una mariposa ávida
que magneticamente atrae otras palabras al tacto y a la videncia
un renacimiento un recuerdo una vocación tremenda
puntos de agua y fuego alimentan la boca-ánfora de un niño
amor es tu nombre, un abstracto nombre.
en grandes bosques del silencio yo amo este niño
dentro de la aurora infantil de tus dedos
por las ramajes verdes el fresco fulgor de las galerías de sombras
el misterio la atravesa en una piedra encendida
de su boca brota el arbusto de un relámpago una flecha
en todo su lento y cientifico clamor
ho secretos labios de mi amada infancia
que revienta en magnolias encendiadas en flor

y cuando me inclino sobre los diques de los ponientes
el fuego me recoge en sus barcos de licor y miel
caigo brutalmente latiendo en una gruta abierta
perdidas entre las altas torres de las ciudades
y sus negras puertas

los objetos parecen voces en las puntas de los lápiz
fuera los semáforos están llenos de fórmulas
apagamos las manos mutilando los gestos
por la noche bajan rosas de nieve por los bosques

entonces corro locamente para dónde soy visible
mis gritos muestran raras joyas en las chimeneas de las casas
millares de hombres pasan incesantemente
es en las palabras que me deposito en cenizas

una raíz de la noche aprende a respirar. estoy despierta
veo con otros ojos las aves y la pupila de los astros
don que asciende del claro de los bosques










   Tive a satisfação de receber hoje o exemplar da obra Manual de literaturas de língua portuguesa: Portugal, Brasil, África Lusófona e Timor-Leste do Profº Dr. João Adalberto Campato Jr. 
   Uma vez mais agradeço a generosidade do Profº Campato pela atenção dada à minha poesia. O cuidado dedicado à produção literária contemporânea é um diferencial do seu olhar crítico. 
   Sinto-me recompensado por ser citado em uma obra tão significativa e abrangente. Compreendo como importante passo, principalmente por se tratar de um poeta que publica apenas no ambiente virtual.
   Publico, com a autorização do autor, a imagem das páginas 277 e 278 onde minha poesia é não somente citada, mas analisada e exemplificada com versos muito bem selecionados.