súbito é desferido
o soco indefensável
enquanto me movo
pelo percurso do
significado novo
compreender na carne a lição
cada palavra no poema
existe tensa, indócil
não dá-se à língua
antes confronta, desafia
como se beijasse
com violência
Quatro poemas de Leopoldo María Panero. Traduzidos da obra Así se fundó Carnaby Street (1970)
A MATANÇA DO DIA DE SÃO VALENTIN.
King Kong assassinado. Como Zapata. Por que não Maiakovski? Ou inclusive Pavese. A maldição. A noite de tormenta. Dies irae. A mentira de Goethe antes de morrer. As trinta moedas. A sombra da forca. Marina Tsvetaeva teu epitáfio será a imensa pradaria coberta de neve.
LA MATANZA DEL DÍA DE SAN VALENTÍN
King-Kong asesinado. Como Zapata. ? Por qué no, Maiacovsky? O incluso Pavese. La maldición. La noche de tormenta. Dies irae. La mentira de Goethe antes de morir. Las treinta monedas. La sombra del patíbulo.. Marina Cvetaeva tu epitáfio serán las inmensas praderas cubiertas de nieve.
XVIII
Aquela tarde que fui ao balé russo. Meu pai me levava pela mão. Seu riso parecia com a morte. Ou era ele quem parecia com a morte? As cinzas da maconha são brancas. Isto, claro, não se aprende na escola.
XVIII
Y aquella tarde que fui al bellet ruso. Mi padre me llevaba de la mano. Su risa se parecía a la muerte.?O era él quien se parecía a la muerte? Las cenizas de la marihuana son blancas. Esto, claro, no se aprende en la escuela.
XXIX
As Damas da Caridade se dedicavam a engaiolar rouxinóis, para que deixassem de cantar, uma morte lenta, e assim fazer colares com seus pequenos ossos brilhantes.
XXIX
Las Damas de la Caridad se dedicaban a enjaular ruiseñores, para que dejaran de cantar, y una muerte lenta, y así hacerse collares con sus huesos brillantes.
HOMENAGEM A CARYL CHESSMAN
"As câmaras de gás que são utilizadas nos Estados Unidos para executar as sentenças de pena capital funcionam, em linhas gerais, da seguinte maneira: mediante a ação de uma alavanca caem quatro bolas de cianeto em um depósito de ácido, gerando o gás. A morte é instantânea."
HOMENAJE A CARYL CHESSMAN
"Las cámaras de gas que se utilizan en los Estados Unidos pára ejecutar las sentencias de pena capital funcionan, en líneas generales, de la siguiente forma: mediante la acción de una palanca caen cuatro bolas de cianuro a un depósito de ácido, generando el gas. La muerte es instantânea."
Poema do venezuelano Rafael Cadenas, obra Intemperie, 1977.
ARS POETICA
Que cada palavra leve o que diz.
Que seja como o tremor que a sustém.
Que se mantenha como um latido.
Não vou proferir adornada falsidade nem pôr tinta
duvidosa ou acrescentar brilho ao que é.
Isso obriga a ouvir-me. Estamos aqui para dizer
verdades.
Sejamos reais.
Quero exatidões aterradoras.
Tremo quando creio que me falsifico. Devo reconhecer
minhas palavras. Me possuem tanto quanto eu a elas.
Se não vejo bem, diga, tu que me conhece, minha mentira,
acuse a impostura, me esfregue na cara a fraude.
Te agradecerei, juro. Enlouqueço por ser correspondido.
Seja meus olhos, me espere na noite e me aviste, examine,
me sacuda.
ARS POETICA
Que cada palabra lleve lo que dice.
Que sea como el temblor que la sostiene.
Que se mantenga como un latido.
No he de proferir adornada falsedad ni poner tinta dudosa
ni añadir brillo a lo que es.
Esto me obliga a oírme. Pero estamos aquí para decir
verdad.
Seamos reales.
Quiero exactudes aterradoras.
Tiemblo cuando creo que me falsifico. Debo llevar en peso
mis palavras. Me poseen tanto como yo a ellas.
Si no veo bien, diime tú, tú que me conoces, mi mentira,
señálame la impostura, restriégame la estafa.
Te lo agradeceré, en serio. Enlouquezco por corresponderme.
Sé mi ojo, espérame en la noche y divísame, escrútame,
sacúdeme.
Tradução de Gustavo Petter.
Cinco poemas de Roberto Bolaño.
Dentro de mil anos não
restará nada
do quanto se há escrito
neste século.
Lerão frases soltas,
rastros
de mulheres perdidas,
fragmentos de crianças
imóveis,
teus olhos lentos e verdes
simplesmente não
existirão.
Será como a Antologia
Grega,
ainda mais distante,
como uma praia no inverno
para outro assombro e
outra indiferença.
Dentro de míl años no
quedará nada
de cuanto se ha escrito
en este siglo.
Leerán frases sueltas,
huellas
de mujeres perdidas,
fragmentos de niños
inmóviles,
tus ojos lentos y verdes
simplemente no existirán.
Será como la Antología
Griega,
aún ás distante,
como una playa en invierno
para otro asombro y otra
indiferencia.
POETA CHINÊS EM BARCELONA
Um poeta chinês pensa ao
redor
de uma palavra sem chegar
a tocá-la,
sem chegar a mirá-la, sem
chegar a representá-la.
Detrás do poeta há
montanhas
amarelas e secas varridas
pelo vento,
repentinas chuvas,
restaurantes baratos,
nuvens brancas que se
fragmentam.
POETA CHINO EN BARCELONA
Un poeta chino piensa
alrededor
de una palabra sin llegar
a tocarla,
sin llegar a mirarla, sin
llegar a representarla.
Detrás del poeta hay
montañas
amarillas y secas
barridas por
el viento,
ocasionales lluvias,
restaurantes baratos,
nubes blancas que se
fragmentan.
ESTA É A PURA VERDADE
Me criei ao lado de
puritanos revolucionários
Sendo criticado ajudado
empurrado por heróis
da poesia lírica
e pelo balanço da morte.
Quero dizer que meu
lirismo é DIFERENTE
(já está tudo expresso
mas me permita
Acrescentar algo mais).
Nadar nos pântanos da
pieguice
é para mim um Acapulco de
mercúrio
um Acapulco de sangue de
peixe
uma Disneylândia submarina
Onde estou em paz comigo.
ESTA ES LA PURA VERDAD
Me he criado al lado de
puritanos revolucionarios
He sido criticado ayudado
empujado por héroes
de la poesía lírica
y del balancín de la
muerte.
Quiero decir que mí
lirismo es DIFERENTE
(ya está todo expresado
pero permitidme
añadir algo más).
Nadar en los pantanos de
la cursilería
es para mí como un Acapulco
de mercurio
un Acapulco de sangre de
pescado
una Disneylandia submarina
En donde soy en paz
conmigo.
O TRABALHO
Em meus trabalhos a
prática se decanta como causa e efeito
de um rombo sempre
presente e em movimento.
O olhar desesperado de um
detetive
diante de um crepúsculo
extraordinário.
Escrita rápida traço
rápido sobre o doce dia que
chegará e não verei.
Porém não ponte de
maneira nenhuma ponte nem sinais
para sair de um labirinto
ilusório.
Acaso rimas invisíveis e
rimas blindadas ao redor de
um jogo infantil, a
certeza de que ela está sonhando.
Poesia que talvez advogue
por minha sombra em dias vindouros
quando somente seja um
nome e não o homem que com
os bolsos vazios
vagabundeou e trabalhou nos matadouros
do velho e do novo
continente.
Credibilidade e não
durabilidade peço para os romances
que compus em honra de
garotas bem concretas.
E piedade para meus anos
até chegar aos 26.
EL TRABAJO
En mis trabajos la
práctica se decanta como causa y efecto
de un rombo siempre
presente y en movimiento.
La mirada deseperada de
un detective
frente a un crepúsculo
extraordinario.
Escritura rápida trazo
rápido sobre un dulce día que
llegará y no veré.
Pero no puente de ninguna
manera puente ni señales
para salir de un
laberinto ilusorio.
Acaso rimas invisibles y
rimas acorazadas alrededor de
un juego infantil, la
certeza de que ella está soñando.
Poesía que tal vez abogue
por mi sombra en días venideros
cuando yo sólo sea un
nombre y no el hombre que con
los bolsillos vacíos
vagabuandeó y trabajó en los mataderos
del viejo y del nuevo
continente.
Credibilidad y no
durabilidad pido para los romances
que compuse en honor de
muchachas muy concretas.
Y piedad para mis años
hasta arribar a los 26.
Raro oficio
gratuito Ir perdendo o cabelo
e os
dentes As antigas maneiras de ser educado
Estranha
complacência (O poeta não deseja ser mais
que os
outros) Nem riqueza nem fama nem somente
poesia
Talvez esta seja a única forma
de não ter medo
Instalar-se no medo
como quem vive dentro da
lentidão
Fantasmas que todos
possuímos Simplesmente
aguardando alguém ou algo
sobre as ruínas
Raro oficio
gratuito Ir perdiendo al pelo
y los dientes
Las atiguas formas de ser educado
Extraña
complacencia (El poeta no desea ser más
que los
otros) Ni riqueza ni fama ni tan sólo
poesía Tal
vez ésta sea la única forma
de no tener
miedo Instalarse en el miedo
como quien vive dientro
de la lentitud
Fantasmas que todos
poseemos Simplemente
aguardando a alguien o
algo sobre las ruinas
vê-la
e contra
não mover
um dedo
contemplar
o ritmo
bovino
sem ler
a oculta
selvageria
injustiças
passeiam
pelas ruas
vacas sagradas
calar: se
muda
a recusa
nada agrega
não muda
as regras
não só
os poetas
sim o povo
semeia sobre
o silêncio
palavras
de recusa
mãos firmes
agarrem sem medo
o animal pelos chifres
o conduzam
para fora
da tua horta
em silêncio
observa o
movimento
oscila
imersa na
manhã amena
percebe a certeza
menos acesa
de exuberante candelabro
resume-se ao lume fraco
lâmpada de poucos watts
sussurra
entre
a treva
absoluta
madre teresa
escrevera
em alguma carta
sobre a dúvida
oscila
não há
a mínima
regularidade
que estabeleça
um ritmo
estilhaços
espalhados
taça lançada
contra a transparência
do verbo permanecer
oscila
leva à
náusea
o homem
que busca
no movimento
a dança
e nega
a fratura
observa o
movimento
oscila
imersa na
manhã amena
percebe a certeza
menos acesa
de exuberante candelabro
resume-se ao lume fraco
lâmpada de poucos watts
sussurra
entre
a treva
absoluta
madre teresa
escrevera
em alguma carta
sobre a dúvida
oscila
não há
a mínima
regularidade
que estabeleça
um ritmo
estilhaços
espalhados
taça lançada
contra a transparência
do verbo permanecer
oscila
leva à
náusea
o homem
que busca
no movimento
a dança
e nega
a fratura
O som do trompete alça de um apartamento próximo. Voo solitário entre os prédios. Alguém estuda a partitura. A breve sequência soa, silencia, repete-se. Meus ouvidos inaptos não reconhecerão o tempo impecável, a perfeita execução. Se Louis ou Chet. Lenta lâmina sobre o silêncio. Importa-me porque fere o fim de tarde. O som do trompete. Ouço-o ave noturna, outro ritmo, oposto aos pássaros que ateiam manhãs.
Roberto Bolaño.
Ninguém te manda cartas agora Debaixo do farol
no entardecer Os lábios partidos pelo vento
Longe fazem a revolução Um gato
dorme entre teus braços
As vezes és imensamente feliz
Nadie te manda cartas ahora Debajo del faro
en el atardecer Los labios partidos por el viento
Hacia el Este hacen la revolución Un gato
duerme entre tus brazos
A veces eres inmensamente feliz
Poema da obra La Universidad Desconocida, traduzido por Gustavo Petter.
Roberto Bolaño.
Colinas sombreadas mais além dos teus sonhos.
Os castelos que sonha o vagabundo.
Morrer ao fim de um dia qualquer.
Impossível escapar da violência.
Impossível pensar em outra coisa.
Fracos senhores louvam poesia e armas.
Castelos e pássaros de outra imaginação.
O que ainda não tem forma me protegerá.
Colinas sombreadas más allá de tus sueños.
Los castillos que sueña el vagabundo.
Morir al final de un día cualquiera.
Imposible escapar de la violencia.
Imposible pensar en otra cosa.
Flacos señores alaban poesía y armas.
Castillos y pájaros de otra imaginación.
Lo que aún no tiene forma me protegerá.
Roberto Bolaño em La Universidad Desconocida.
Os castelos que sonha o vagabundo.
Morrer ao fim de um dia qualquer.
Impossível escapar da violência.
Impossível pensar em outra coisa.
Fracos senhores louvam poesia e armas.
Castelos e pássaros de outra imaginação.
O que ainda não tem forma me protegerá.
Colinas sombreadas más allá de tus sueños.
Los castillos que sueña el vagabundo.
Morir al final de un día cualquiera.
Imposible escapar de la violencia.
Imposible pensar en otra cosa.
Flacos señores alaban poesía y armas.
Castillos y pájaros de otra imaginación.
Lo que aún no tiene forma me protegerá.
Roberto Bolaño em La Universidad Desconocida.
Ritmos.
Duas palavras unem-se pela semelhança sonora. O ritmo é imã, atrai outra. Juntas constroem a imagem inóspita. Eclosão, núcleo, ponto nevrálgico do possível poema. Sempre assim, desatento, o pensamento passeando pelas margens, o periférico sendo colhido, por exemplo, a velocidade das pálpebras encobrindo e descobrindo o verniz dos olhos castanhos claros, fixos onde os meus deveriam estar, a mulher vestida com elegância, sobriamente maquiada, falando sobre as qualidades do profissional ideal. Que postura corporal, disponibilidade, capacidade de decisão, maneira de vestir-se diferencia o bom do excelente.
A plateia composta por funcionários recém contratados, todos captando cada palavra, complementada, como no teatro, pela expressão facial da palestrante.
Sentado quase ao fundo da sala, compreendendo-me mais um poeta em tempo integral que membro ou colaborador, eufemismos pronunciados para que ninguém sinta-se subalterno. Ouço o compasso hipnótico dos ventiladores de teto, busco versos para simbolizar o giro, o sopro. Percebi pelo desritmo dos olhos, revoada uníssona para a esquerda, que algo aconteceu. Acabara de transpassar a porta uma senhorinha, ombros estreitos sob o singelo casaco de lã lilás. O silêncio do público e dos que estão à frente coordenando as atividades, expressam a importância da sua presença. Avança a passos lentos olhando ao redor. Seu corpo transmite fragilidade, não condiz com as características pré-estabelecidas em nosso imaginário, de quem gere há décadas a bem sucedida empresa da qual seremos, em breve, subordinados. Sinto-me ridículo por pensar de forma tão vulgar, homogênea, seguindo a manada.
Acompanho seu percurso até a cadeira colocada impecavelmente ao centro da longa mesa, ornada com toalhas brancas e um vaso de flores em cada extremo. Com um gesto delicado a senhora recusa o convite para sentar-se, prefere permanecer em pé, falar olhando para todos. Nesse momento senti o impacto, a voz destoa da aparência débil, soa forte, acolhe os ouvidos, cativa. Percebo seu olhar demorar sobre o dos ouvintes, borboleta alternando o voo suave de corola a corola.
O som intacto com que proclama o discurso de boas vindas, só não disfarça as mãos trêmulas, sobretudo a esquerda, denunciando a doença. Entrelaça os dedos tentando contê-los, disfarçar o movimento involuntário. Gesto vão. Leio o tremor, sem a vulgar piedade. A imagino sustentando um pesado livro em horas insones. Banhando a pálida pele, o tato indagando a desarmonia entre o pensamento e o corpo.
Quero sentir a temperatura das mãos descarnadas. Pousem sobre mim o ritmo enfermo. Tenho prazer em intuir nesse desejo uma espécie de crime.
A plateia composta por funcionários recém contratados, todos captando cada palavra, complementada, como no teatro, pela expressão facial da palestrante.
Sentado quase ao fundo da sala, compreendendo-me mais um poeta em tempo integral que membro ou colaborador, eufemismos pronunciados para que ninguém sinta-se subalterno. Ouço o compasso hipnótico dos ventiladores de teto, busco versos para simbolizar o giro, o sopro. Percebi pelo desritmo dos olhos, revoada uníssona para a esquerda, que algo aconteceu. Acabara de transpassar a porta uma senhorinha, ombros estreitos sob o singelo casaco de lã lilás. O silêncio do público e dos que estão à frente coordenando as atividades, expressam a importância da sua presença. Avança a passos lentos olhando ao redor. Seu corpo transmite fragilidade, não condiz com as características pré-estabelecidas em nosso imaginário, de quem gere há décadas a bem sucedida empresa da qual seremos, em breve, subordinados. Sinto-me ridículo por pensar de forma tão vulgar, homogênea, seguindo a manada.
Acompanho seu percurso até a cadeira colocada impecavelmente ao centro da longa mesa, ornada com toalhas brancas e um vaso de flores em cada extremo. Com um gesto delicado a senhora recusa o convite para sentar-se, prefere permanecer em pé, falar olhando para todos. Nesse momento senti o impacto, a voz destoa da aparência débil, soa forte, acolhe os ouvidos, cativa. Percebo seu olhar demorar sobre o dos ouvintes, borboleta alternando o voo suave de corola a corola.
O som intacto com que proclama o discurso de boas vindas, só não disfarça as mãos trêmulas, sobretudo a esquerda, denunciando a doença. Entrelaça os dedos tentando contê-los, disfarçar o movimento involuntário. Gesto vão. Leio o tremor, sem a vulgar piedade. A imagino sustentando um pesado livro em horas insones. Banhando a pálida pele, o tato indagando a desarmonia entre o pensamento e o corpo.
Quero sentir a temperatura das mãos descarnadas. Pousem sobre mim o ritmo enfermo. Tenho prazer em intuir nesse desejo uma espécie de crime.
Rainer Maria Rilke, 1913. Fonte:http://www.abc.es/20101016/cultura-libros/rilke-inedito-201010141851.html
orna com formas amenas
o silêncio da antessala
nas folhas rajadas vejo
o dorso de um tigre verde
adormecido no fundo da jaula
(hoje preciso reler Der Panther)
quem quererá os caninos
da verdade transpassando
a carne até o osso?
palavra despida
sem a convulsa
dança da náusea
prefiro o poema
que ao lacerar lê
pétalas liquefeitas
louva a iminência do jardim
sob o livre velejar das lâminas
sob o peso da poesia
a experiência permanece
sabe dos que se salvaram:
permaneceram na superfície
do avesso sabe o balé das algas
os peixes de olhos sempre acesos
movendo-se sem ferir o silêncio
resta na pele que emerge
sal e cheiro de mar
inscrito no homem
o pugilismo das marés
crianças desenham crânios
sobre ossos cruzados
porque a palavra
permanece indócil
a escrita parece à deriva
não ao acaso o fluxo
conduz por signos marinhos
o poema impele: submergir
sem escafandro
confiar no
próprio fôlego
ensina o extremo: transformar
mergulho em naufrágio
permaneceram na superfície
do avesso sabe o balé das algas
os peixes de olhos sempre acesos
movendo-se sem ferir o silêncio
resta na pele que emerge
sal e cheiro de mar
inscrito no homem
o pugilismo das marés
crianças desenham crânios
sobre ossos cruzados
porque a palavra
permanece indócil
a escrita parece à deriva
não ao acaso o fluxo
conduz por signos marinhos
o poema impele: submergir
sem escafandro
confiar no
próprio fôlego
ensina o extremo: transformar
mergulho em naufrágio
no avesso
algo envolto
não traduzido por:
alma memórias vísceras
vida invisível no bojo
do corpo que envolve
existe incorpóreo
só presumível pelo
peso expresso
nos passos lentos
daquele que porta
desoladora mudez
de não poder
esculpir cuspir
ou ao menos
auscultar o oculto
embora pulse
e busque forma
atreva-se à travessia
entranhe-se entre
palavras estranhas
aos significados
insuficientes para
devassa-los
no avesso
algo envolto
segue sem nome
sendo sobretudo
presença
algo envolto
não traduzido por:
alma memórias vísceras
vida invisível no bojo
do corpo que envolve
existe incorpóreo
só presumível pelo
peso expresso
nos passos lentos
daquele que porta
desoladora mudez
de não poder
esculpir cuspir
ou ao menos
auscultar o oculto
embora pulse
e busque forma
atreva-se à travessia
entranhe-se entre
palavras estranhas
aos significados
insuficientes para
devassa-los
no avesso
algo envolto
segue sem nome
sendo sobretudo
presença
pelo fôlego
evocar o fogo
ao fabricar o vento
embora seja o sopro
ambíguo por poder
extingui-lo existe
em si a certeza
soprar com o coração
como sopra Coltrane
alimenta a frágil fagulha
ascendê-la a incêndio
escrevê-la contra as trevas
assim atear claridade e calor
sobre a noite que persiste
não cessa acesa ao avesso
evocar o fogo
ao fabricar o vento
embora seja o sopro
ambíguo por poder
extingui-lo existe
em si a certeza
soprar com o coração
como sopra Coltrane
alimenta a frágil fagulha
ascendê-la a incêndio
escrevê-la contra as trevas
assim atear claridade e calor
sobre a noite que persiste
não cessa acesa ao avesso
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