súbito é desferido
o soco indefensável
enquanto me movo
pelo percurso do
significado novo

compreender na carne a lição
cada palavra no poema
existe tensa, indócil
não dá-se à língua
antes confronta, desafia

como se beijasse
com violência



fosse carícia
percorreria
suave a superfície
mesmo movida
por lascívia
não permitiria
ler em
vermelho
o rastro
solo revolvido
pelo arado
onde plantar
a alma
ainda impregnada
pelos ossos
atrás dos olhos palavras se movem

animais esgueirando-se ocultos no verde silêncio

mata nativa não intocada mas relativamente intacta

importa é ainda dar voz ao vento soar a mínima brisa

soprar pássaros abrigar a vida indócil

para prosseguir é preciso

crê-la último refúgio

à palavra


à alma
embora
esteja
em perfeito
estado o
espelho

aço intacto
impecável 
assepsia
da superfície

nada assevera
o reflexo

ver-me
verme

verdade
revelada
no poema
um impiedoso 
poema

Quatro poemas de Leopoldo María Panero. Traduzidos da obra Así se fundó Carnaby Street (1970)



A MATANÇA DO DIA DE SÃO VALENTIN.


King Kong assassinado. Como Zapata. Por que não Maiakovski? Ou inclusive Pavese. A maldição. A noite de tormenta. Dies irae. A mentira de Goethe antes de morrer. As trinta moedas. A sombra da forca. Marina Tsvetaeva teu epitáfio será a imensa pradaria coberta de neve.



LA MATANZA DEL DÍA DE SAN VALENTÍN

King-Kong asesinado. Como Zapata. ? Por qué no, Maiacovsky? O incluso Pavese. La maldición. La noche de tormenta. Dies irae. La mentira de Goethe antes de morir. Las treinta monedas. La sombra del patíbulo.. Marina Cvetaeva tu epitáfio serán las inmensas praderas cubiertas de nieve.



XVIII

Aquela tarde que fui ao balé russo. Meu pai me levava pela mão. Seu riso parecia com a morte. Ou era ele quem parecia com a morte?  As cinzas da maconha são brancas. Isto, claro, não se aprende na escola.




XVIII

Y aquella tarde que fui al bellet ruso. Mi padre me llevaba de la mano. Su risa se parecía a la muerte.?O era él quien se parecía a la muerte? Las cenizas de la marihuana son blancas. Esto, claro, no se aprende en la escuela.




XXIX

As Damas da Caridade se dedicavam a engaiolar rouxinóis, para que deixassem de cantar, uma morte lenta, e assim fazer colares com seus pequenos ossos brilhantes.



XXIX

Las Damas de la Caridad se dedicaban a enjaular ruiseñores, para que dejaran de cantar, y una muerte lenta, y así hacerse collares con sus huesos brillantes.



HOMENAGEM A CARYL CHESSMAN

"As câmaras de gás que são utilizadas nos Estados Unidos para executar as sentenças de pena capital funcionam, em linhas gerais, da seguinte maneira: mediante a ação de uma alavanca caem quatro bolas de cianeto em um depósito de ácido, gerando o gás. A morte é instantânea."



HOMENAJE A CARYL CHESSMAN

"Las cámaras de gas que se utilizan en los Estados Unidos pára ejecutar las sentencias de pena capital funcionan, en líneas generales, de la siguiente forma: mediante la acción de una palanca caen cuatro bolas de cianuro a un depósito de ácido, generando el gas. La muerte es instantânea."













excesso
de céu
desola
os olhos

azul
aceso
contorna
a curva
longe

olhar arremessado
contra o nada

não há
pouso possível
ou amparo:
avião nuvem
muro prédios

a retina segue
ad infinitum

Poema do venezuelano Rafael Cadenas, obra Intemperie, 1977.



ARS POETICA

Que cada palavra leve o que diz.
Que seja como o tremor que a sustém.
Que se mantenha como um latido.

Não vou proferir adornada falsidade nem pôr tinta
duvidosa ou acrescentar brilho ao que é.
Isso obriga a ouvir-me. Estamos aqui para dizer
verdades.
Sejamos reais.
Quero exatidões aterradoras.
Tremo quando creio que me falsifico. Devo reconhecer
minhas palavras. Me possuem tanto quanto eu a elas.

Se não vejo bem, diga, tu que me conhece, minha mentira,
acuse a impostura, me esfregue na cara a fraude.
Te agradecerei, juro. Enlouqueço por ser correspondido.
Seja meus olhos, me espere na noite e me aviste, examine,
me sacuda.


ARS POETICA

Que cada palabra lleve lo que dice.
Que sea como el temblor que la sostiene.
Que se mantenga como un latido.

No he de proferir adornada falsedad ni poner tinta dudosa
ni añadir brillo a lo que es.
Esto me obliga a oírme. Pero estamos aquí para decir
verdad.
Seamos reales.
Quiero exactudes aterradoras.
Tiemblo cuando creo que me falsifico. Debo llevar en peso
mis palavras. Me poseen tanto como yo a ellas.

Si no veo bien, diime tú, tú que me conoces, mi mentira,
señálame la impostura, restriégame la estafa.
Te lo agradeceré, en serio. Enlouquezco por corresponderme.
Sé mi ojo, espérame en la noche y divísame, escrútame,
sacúdeme.



Tradução de Gustavo Petter.





em neon na
fachada do
sushi bar

tatuado
no corpo

na antologia bilíngue 
de poesia chinesa 
lida à sombra

ideogramas

vibram
sob o 
trinar
dos pássaros

os mestres
traçam com
pinceladas 
precisas
linhas 
negras



flânerie: movimento 
é a essência
não há alfa ou ômega
partir do ponto A ao B

livremente
percursos
se entrecruzam

dança
ideograma

passos não tangidos
somente aos domingos

assim também era
na Paris de Baudelaire

o poeta não é imune
ou vive incólume
porque move-se
em outro ritmo






Cinco poemas de Roberto Bolaño.

Dentro de mil anos não restará nada
do quanto se há escrito neste século.
Lerão frases soltas, rastros
de mulheres perdidas,
fragmentos de crianças imóveis,
teus olhos lentos e verdes
simplesmente não existirão.
Será como a Antologia Grega,
ainda mais distante,
como uma praia no inverno
para outro assombro e outra indiferença.





Dentro de míl años no quedará nada
de cuanto se ha escrito en este siglo.
Leerán frases sueltas, huellas
de mujeres perdidas,
fragmentos de niños inmóviles,
tus ojos lentos y verdes
simplemente no existirán.
Será como la Antología Griega,
aún ás distante,
como una playa en invierno
 para otro asombro y otra indiferencia. 





POETA CHINÊS EM BARCELONA

Um poeta chinês pensa ao redor
de uma palavra sem chegar a tocá-la,
sem chegar a mirá-la, sem
chegar a representá-la.
Detrás do poeta há montanhas
amarelas e secas varridas
pelo vento,
repentinas chuvas,
restaurantes baratos,
nuvens brancas que se fragmentam.




POETA CHINO EN BARCELONA

Un poeta chino piensa alrededor
de una palabra sin llegar a tocarla,
sin llegar a mirarla, sin
llegar a representarla.
Detrás del poeta hay montañas
amarillas y secas barridas por
el viento,
ocasionales lluvias,
restaurantes baratos,
nubes blancas que se fragmentan.














ESTA É A PURA VERDADE

Me criei ao lado de puritanos revolucionários
Sendo criticado ajudado empurrado por heróis
da poesia lírica
e pelo balanço da morte.
Quero dizer que meu lirismo é DIFERENTE
(já está tudo expresso mas me permita
Acrescentar algo mais).
Nadar nos pântanos da pieguice
é para mim um Acapulco de mercúrio
um Acapulco de sangue de peixe
uma Disneylândia submarina
Onde estou em paz comigo.




ESTA ES LA PURA VERDAD

Me he criado al lado de puritanos revolucionarios
He sido criticado ayudado empujado por héroes
de la poesía lírica
y del balancín de la muerte.
Quiero decir que mí lirismo es DIFERENTE
(ya está todo expresado pero permitidme
añadir algo más).
Nadar en los pantanos de la cursilería
es para mí como un Acapulco de mercurio
un Acapulco de sangre de pescado
una Disneylandia submarina
En donde soy en paz conmigo.




O TRABALHO

Em meus trabalhos a prática se decanta como causa e efeito
de um rombo sempre presente e em movimento.
O olhar desesperado de um detetive
diante de um crepúsculo extraordinário.
Escrita rápida traço rápido sobre o doce dia que
chegará e não verei.
Porém não ponte de maneira nenhuma ponte nem sinais
para sair de um labirinto ilusório.
Acaso rimas invisíveis e rimas blindadas ao redor de
um jogo infantil, a certeza de que ela está sonhando.
Poesia que talvez advogue por minha sombra em dias vindouros
quando somente seja um nome e não o homem que com
os bolsos vazios vagabundeou e trabalhou nos matadouros
do velho e do novo continente.
Credibilidade e não durabilidade peço para os romances
que compus em honra de garotas bem concretas.
E piedade para meus anos até chegar aos 26.



EL TRABAJO

En mis trabajos la práctica se decanta como causa y efecto
de un rombo siempre presente y en movimiento.
La mirada deseperada de un detective
frente a un crepúsculo extraordinario.
Escritura rápida trazo rápido sobre un dulce día que
llegará y no veré.
Pero no puente de ninguna manera puente ni señales
para salir de un laberinto ilusorio.
Acaso rimas invisibles y rimas acorazadas alrededor de
un juego infantil, la certeza de que ella está soñando.
Poesía que tal vez abogue por mi sombra en días venideros
cuando yo sólo sea un nombre y no el hombre que con
los bolsillos vacíos vagabuandeó y trabajó en los mataderos
del viejo y del nuevo continente.
Credibilidad y no durabilidad pido para los romances
que compuse en honor de muchachas muy concretas.
Y piedad para mis años hasta arribar a los 26.




Raro oficio gratuito   Ir perdendo o cabelo
e os dentes    As antigas maneiras de ser educado
Estranha complacência   (O poeta não deseja ser mais
que os outros)   Nem riqueza nem fama nem somente
poesia    Talvez esta seja a única forma
de não ter medo   Instalar-se no medo
como quem vive dentro da lentidão
Fantasmas que todos possuímos  Simplesmente
aguardando alguém ou algo sobre as ruínas




Raro oficio gratuito   Ir perdiendo al pelo
y los dientes     Las atiguas formas de ser educado
Extraña complacencia    (El poeta no desea ser más
que los otros)    Ni riqueza ni fama ni tan sólo
poesía   Tal vez ésta sea la única forma
de no tener miedo    Instalarse en el miedo
como quien vive dientro de la lentitud
Fantasmas que todos poseemos  Simplemente
aguardando a alguien o algo sobre las ruinas







deslizasse feito navalha
traçaria a linha precisa

arrasta-se como arado
percorre a superfície

nem pele ou terra
o silêncio lacerado








































vê-la
e contra
não mover
um dedo

contemplar
o ritmo 
bovino
sem ler
a oculta
selvageria

injustiças
passeiam 
pelas ruas 
vacas sagradas

calar: se
muda
a recusa
nada agrega
não muda
as regras

não só
os poetas
sim o povo
semeia sobre
o silêncio
palavras
de recusa

mãos firmes
agarrem sem medo
o animal pelos chifres
o conduzam
para fora
da tua horta

em silêncio
observa o
movimento

oscila

imersa na 
manhã amena
percebe a certeza
menos acesa

de exuberante candelabro
resume-se ao lume fraco
lâmpada de poucos watts

sussurra 
entre 
a treva 
absoluta

madre teresa
escrevera
em alguma carta
sobre a dúvida

oscila

não há
a mínima
regularidade
que estabeleça
um ritmo

estilhaços
espalhados
taça lançada
contra a transparência
do verbo permanecer

oscila

leva à
náusea
o homem
que busca
no movimento
a dança
e nega
a fratura





gotas explodem contra
as lâminas metálicas
finas feito pálpebras

(outro tempo
o som surdo
na madeira
da janela
que rangia
ao ser aberta)

soam sobre
as telhas do
estacionamento

pesado e lento
o ritmo da chuva
em descompasso
com os presságios
de tempestade




que incidentes precederam 
a manhã da metamorfose?

a ordem era tamanha
oprimindo Gregor Samsa

nem mesmo 
os pensamentos
perdiam-se

extremo
foi perceber
um cão perseguir
o próprio rabo
em sentido horário
segundo dia
que vê
andorinhas

na manhã
afiladas 
formas
voam
muito
próximas
aos olhos

como
abruptas
alteram
a rota

sugerem
insurgir-se

por que
querer
o percurso
linear?

   O som do trompete alça de um apartamento próximo. Voo solitário entre os prédios. Alguém estuda a partitura. A breve sequência soa, silencia, repete-se. Meus ouvidos inaptos não reconhecerão o tempo impecável, a perfeita execução. Se Louis ou Chet. Lenta lâmina sobre o silêncio. Importa-me porque fere o fim de tarde. O som do trompete. Ouço-o ave noturna, outro ritmo, oposto aos pássaros que ateiam manhãs. 

Roberto Bolaño.



Ninguém te manda cartas agora     Debaixo do farol
no entardecer                 Os lábios partidos pelo vento
Longe fazem a revolução                      Um gato
dorme entre teus braços
As vezes és imensamente feliz



Nadie te manda cartas ahora        Debajo del faro
en el atardecer      Los labios partidos por el viento
Hacia el Este hacen la revolución            Un gato
duerme entre tus brazos      
A veces eres inmensamente feliz



Poema da obra La Universidad Desconocida, traduzido por Gustavo Petter.

dias há de desmemória
lê-se o azul intacto da superfície
outros a maré avança com violência
a linha de espuma contra a orla

dias há de ser areia sob o pesado pugilato da memória

Roberto Bolaño.

Colinas sombreadas mais além dos teus sonhos.
Os castelos que sonha o vagabundo.
Morrer ao fim de um dia qualquer.
Impossível escapar da violência.
Impossível pensar em outra coisa.
Fracos senhores louvam poesia e armas.
Castelos e pássaros de outra imaginação.
O que ainda não tem forma me protegerá.


Colinas sombreadas más allá de tus sueños.
Los castillos que sueña el vagabundo.
Morir al final de un día cualquiera.
Imposible escapar de la violencia.
Imposible pensar en otra cosa.
Flacos señores alaban poesía y armas.
Castillos y pájaros de otra imaginación.
Lo que aún no tiene forma me protegerá.


Roberto Bolaño em La Universidad Desconocida. 




Ritmos.

               Duas palavras unem-se pela semelhança sonora. O ritmo é imã, atrai outra. Juntas constroem a imagem inóspita. Eclosão, núcleo, ponto nevrálgico do possível poema. Sempre assim, desatento, o pensamento passeando pelas margens, o periférico sendo colhido, por exemplo, a velocidade das pálpebras encobrindo e descobrindo o verniz dos olhos castanhos claros, fixos onde os meus deveriam estar, a mulher vestida com elegância, sobriamente maquiada, falando sobre as qualidades do profissional ideal. Que postura corporal, disponibilidade, capacidade de decisão, maneira de vestir-se diferencia o bom do excelente.
   A plateia composta por funcionários recém contratados, todos captando cada palavra, complementada, como no teatro, pela expressão facial da palestrante.
   Sentado quase ao fundo da sala, compreendendo-me mais um poeta em tempo integral que membro ou colaborador, eufemismos pronunciados para que ninguém sinta-se subalterno. Ouço o compasso hipnótico dos ventiladores de teto, busco versos para simbolizar o giro, o sopro. Percebi pelo desritmo dos olhos, revoada uníssona para a esquerda, que algo aconteceu. Acabara de transpassar a porta uma senhorinha, ombros estreitos sob o singelo casaco de lã lilás. O silêncio do público e dos que estão à frente coordenando as atividades, expressam a importância da sua presença. Avança a passos lentos olhando ao redor. Seu corpo transmite fragilidade, não condiz com as características pré-estabelecidas em nosso imaginário, de quem gere há décadas a bem sucedida empresa da qual seremos, em breve, subordinados. Sinto-me ridículo por pensar de forma tão vulgar, homogênea, seguindo a manada.
   Acompanho seu percurso até a cadeira colocada impecavelmente ao centro da longa mesa, ornada com toalhas brancas e um vaso de flores em cada extremo. Com um gesto delicado a senhora recusa o convite para sentar-se, prefere permanecer em pé, falar olhando para todos. Nesse momento senti o impacto, a voz destoa da aparência débil, soa forte, acolhe os ouvidos, cativa. Percebo seu olhar demorar sobre o dos ouvintes, borboleta alternando o voo suave de corola a corola.
   O som intacto com que proclama o discurso de boas vindas, só não disfarça as mãos trêmulas, sobretudo a esquerda, denunciando a doença. Entrelaça os dedos tentando contê-los, disfarçar o movimento involuntário. Gesto vão. Leio o tremor, sem a vulgar piedade. A imagino sustentando um pesado livro em horas insones. Banhando a pálida pele, o tato indagando a desarmonia entre o pensamento e o corpo.
   Quero sentir a temperatura das mãos descarnadas. Pousem sobre mim o ritmo enfermo. Tenho prazer em intuir nesse desejo uma espécie de crime.









orna com formas amenas
o silêncio da antessala
nas folhas rajadas vejo
o dorso de um tigre verde
adormecido no fundo da jaula
(hoje preciso reler Der Panther)

quem quererá os caninos
da verdade transpassando
a carne até o osso?

palavra despida
sem a convulsa
dança da náusea

prefiro o poema 
que ao lacerar lê
pétalas liquefeitas
louva a iminência do jardim
sob o livre velejar das lâminas

sob o peso da poesia
a experiência permanece



   Imagens do meu poema que integra a exposição POESIA AGORA no Museu da Língua Portuguesa e da ala Livros onde está exposto. 








Créditos das imagens para Simone Castro que fez a gentileza de registrá-las. 

sabe dos que se salvaram:
permaneceram na superfície

do avesso sabe o balé das algas
os peixes de olhos sempre acesos
movendo-se sem ferir o silêncio

resta na pele que emerge
sal e cheiro de mar

inscrito no homem
o pugilismo das marés

crianças desenham crânios
sobre ossos cruzados

porque a palavra
permanece indócil
a escrita parece à deriva
não ao acaso o fluxo
conduz por signos marinhos

o poema impele: submergir 
sem escafandro
confiar no 
próprio fôlego

ensina o extremo: transformar
mergulho em naufrágio



no avesso
algo envolto
não traduzido por:
alma memórias vísceras
vida invisível no bojo
do corpo que envolve
existe incorpóreo
só presumível pelo 
peso expresso
nos passos lentos
daquele que porta
desoladora mudez
de não poder
esculpir cuspir
ou ao menos
auscultar o oculto
embora pulse
e busque forma
atreva-se à travessia
entranhe-se entre 
palavras estranhas
aos significados
insuficientes para
devassa-los

no avesso
algo envolto
segue sem nome
sendo sobretudo
presença 










pelo fôlego
evocar o fogo
ao fabricar o vento

embora seja o sopro
ambíguo por poder
extingui-lo existe
em si a certeza
soprar com o coração
como sopra Coltrane
alimenta a frágil fagulha

ascendê-la a incêndio
escrevê-la contra as trevas
assim atear claridade e calor
sobre a noite que persiste
não cessa acesa ao avesso