Lendo Panero
compreendi o ritmo
da língua
através de blasfêmias
El cráneo
de un enano
clavase en el ano
del más bello
ángel
alrededor
la legión
llora pidiendo
clemencia
al poeta
que escribe palabras
sucias
de heces
y sangre
en la blancura
de los huesos
pero el hombre
sigue ebrio
entregue al flujo
del lenguaje
y
Dios
silencioso
Imagem Malcolm Browne.
Ateaste fogo nos animais
Ao vê-los correr
em selvagem desespero
o noturno esmoler
recolheu o olhar
assustado das crianças
redondo como moedas
depositou-os em tuas mãos
Corações uivaram
Não podes cobrir
teu horror
Olhos borrados
lágrimas escuras
Compreendeste
a dimensão do amor
ao contemplar o
corpo sem camisa
exibindo sobre o peito
um cemitério calcinado
O coro dos anjos cegos
entoou a canção de Bob Dylan
"How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?"
Seria imbecil
percorrer o dia
medrando a palmos
a profundidade
do abismo
Faça assim:
escreva um bilhete
assine e sele com sangue
Proteja-o no bojo
de uma garrafa
Tenha em mãos o copo
bem cheio de água
engula-a pensando
numa cápsula contra
dor de cabeça
Deixe que siga por
sendas inominadas
Avance pelos meandros
além do estômago
O ritual é simbólico
espécie de oração
Não espere resposta
Monologue
com os próprios
demônios
percorrer o dia
medrando a palmos
a profundidade
do abismo
Faça assim:
escreva um bilhete
assine e sele com sangue
Proteja-o no bojo
de uma garrafa
Tenha em mãos o copo
bem cheio de água
engula-a pensando
numa cápsula contra
dor de cabeça
Deixe que siga por
sendas inominadas
Avance pelos meandros
além do estômago
O ritual é simbólico
espécie de oração
Não espere resposta
Monologue
com os próprios
demônios
São necessários dedos
que não tremam
ante o sangue
e sons lancinantes
Mãos que conduzam
o bisturi pelo corte
cirúrgico e preciso
sobre o ponto exato
e removam a palavra
inicial o começo de tudo
Mas temo que seja tarde
o vocabulário em metástase
espalhe pelo corpo
mais imagens às quais
atribuo signos noturnos:
nudez lunar, desamparo,
estrangeiro, alma insone,
etc.
que não tremam
ante o sangue
e sons lancinantes
Mãos que conduzam
o bisturi pelo corte
cirúrgico e preciso
sobre o ponto exato
e removam a palavra
inicial o começo de tudo
Mas temo que seja tarde
o vocabulário em metástase
espalhe pelo corpo
mais imagens às quais
atribuo signos noturnos:
nudez lunar, desamparo,
estrangeiro, alma insone,
etc.
Ofereças teu fôlego
à flauta feita de osso
Fechados os olhos
Bochechas infladas
Sabes soprar os
acordes fluem
acordam as memórias
Os mortos ouvem
em silêncio
Tens talento
entregas o espírito
ao ato de tocar a flauta
feita de osso
O som parece soar
do próprio sangue
Recordo Gregory Corso
e o poema sobre Miles
soprando lâminas
pela noite americana
Os pulmões os lábios
as técnicas do sopro
O segredo é tornar-se
um só: instrumento e corpo
Mas sei que é desolador
ser o solista da flauta
feita de osso
Também é doloroso
ser o ouvinte e sentir
a beleza lacerante
A flauta feita de osso
acompanha-nos
pela travessia
entre fantasmas
à flauta feita de osso
Fechados os olhos
Bochechas infladas
Sabes soprar os
acordes fluem
acordam as memórias
Os mortos ouvem
em silêncio
Tens talento
entregas o espírito
ao ato de tocar a flauta
feita de osso
O som parece soar
do próprio sangue
Recordo Gregory Corso
e o poema sobre Miles
soprando lâminas
pela noite americana
Os pulmões os lábios
as técnicas do sopro
O segredo é tornar-se
um só: instrumento e corpo
Mas sei que é desolador
ser o solista da flauta
feita de osso
Também é doloroso
ser o ouvinte e sentir
a beleza lacerante
A flauta feita de osso
acompanha-nos
pela travessia
entre fantasmas
Arte de Suehiro Maruo.
Aproxime-se
da superfície
vítrea, através
a íris revela-se
dorso de mariposa
insetos são atraídos
pela lâmpada insone
Só de muito perto
podes ler as nuances:
halo esverdeado
cerca o castanho claro
que acolhe esparsos
pontos negros
De muito perto
o hálito impele
ao beijo
Os insetos circulam
em torno até que
apague a luz
o leitor de poesia
e quadrinhos orientais
Nos desenhos
de Suehiro Maruo
a língua acaricia
o olho aberto
estimula a pupila
como a um clitóris
A face indecisa
da jovem japonesa
entre o gozo e a agonia
Aproxime-se
sem náuseas
o sal da lágrima
dissolve na saliva
Pobre pássaro
sacie a sede
de
gota
em
gota
Podes ver
sob o vento
árvores acenam
No adeus
dedos se movem
como pêndulos
porém velozes
Detrás das janelas
olhos se despedem
Do navio os
que partem agitam
lenços brancos
ao cais
A mão silenciosa
rabisca um bilhete
e o deposita sob
o peso de um objeto
pra que não voe
Há muitas maneiras
nenhuma indolor
O que Stéphane Mallarmé quis dizer em seus poemas.
Quis o velho dizer quando já a última lâmpada
no quarto estava apagada
e o sol não nos via, a serpe lançada
com as fezes do dia ao poço da recordação
ao sonho que tudo embaça, ao sonho,
quis dizer o velho que as leis
do amor não são as leis do nada
e somente abraçados a um esqueleto no mundo vazio
sabemos que o amor é nada
e o nada
sendo algo que com o amor e a vida
fatalmente rompe, anseia uma ascese
é por ele que uma cruz nos olhos e um
escorpião no sexo representam ao poeta
nos braços do nada, do nada preenchido
dizendo que nem sequer Deus é superior ao poema.
Da obra Contra España y otros poemas de no amor, 1990.
LO QUE STEPHAN MALLARMÉ QUISE DECIR EN SUS POEMAS
Quiso el viejo decir cuando ya la última lámpara
en el cuarto estaba apagada
y el sol no nos veía, la sierpe lanzaba
con las heces del día al pozo del recuerdo
al sueño que todo lo borra, al sueño,
quiso decir el viejo que las leyes
del amor no son las leyes de la nada
y que sólo abrazados a un esqueleto en el mundo vacío
sabremos como siempre que el amor es nada,
y que la nada
siendo así algo que con el amor y la vida
fatalmente rompe, quiere una ascesis
y es por ello que una cruz en los ojos, y un
escorpión en el falo representan al poeta
en brazos de la nada, de la nada henchido
diciendo que ni siquiera Dios es superior al poema.
Pela manhã, recebo-te quando surges da penumbra do quarto de janelas fechadas para a luminosidade da sala. Cabelos desgrenhados, olhos sonolentos, antes mesmo de ir ao banheiro urinar, recebo-te cheirando-lhe o corpo: lóbulos, face, pescoço. Seguro com as duas mãos teu rosto e cheiro.
Eu te farejo. Tenho por um instante a consciência de ser um animal. Um animal que não fareja movido pelo desejo e sim por uma lacerante ternura que acaricia-lhe a alma com delicadas lâminas.
Olho-te nos olhos, beijo tua bochecha e sorrio meu bom dia em nossa última manhã intacta.
Eu te farejo. Tenho por um instante a consciência de ser um animal. Um animal que não fareja movido pelo desejo e sim por uma lacerante ternura que acaricia-lhe a alma com delicadas lâminas.
Olho-te nos olhos, beijo tua bochecha e sorrio meu bom dia em nossa última manhã intacta.
Chegou em casa encharcada. Rastros líquidos pelos lances de escada. São abruptas as chuvas dos fins de tarde.
Ela sabe.
As gotas açoitam a janela fechada. Soam em rajadas.
Os olhos estão prontos. Porquê não se dissolvem de uma vez? Seus olhos pulsam. Recorda a maré contra o cais imóvel. Barcos umbilicalmente atrelados. A maré contra os cascos embalando. Estão prontos. Pulsam. Porquê não se dissolvem de uma vez?
Dica: coloque o crânio sob o fluxo morno do chuveiro. O rumor da ducha te deixará livre para romper em soluços.
Ela sabe.
As gotas açoitam a janela fechada. Soam em rajadas.
Os olhos estão prontos. Porquê não se dissolvem de uma vez? Seus olhos pulsam. Recorda a maré contra o cais imóvel. Barcos umbilicalmente atrelados. A maré contra os cascos embalando. Estão prontos. Pulsam. Porquê não se dissolvem de uma vez?
Dica: coloque o crânio sob o fluxo morno do chuveiro. O rumor da ducha te deixará livre para romper em soluços.
Espiou pela janela após abrir um breve fresta. Brecha. A escuridão parecia mais densa. Poderia compreendê-la sob a aurada palava: treva. Embora aquela noite fosse como as outras. Mal iluminada. Magros postes metálicos, anzóis invertidos, sustentavam luzes acesas sobre o estacionamento. Blocos de apartamentos enfileirados eram soldados em silêncio.
O quê está havendo contigo? Perguntar ao espelho seria tolo. O ato.
A janela do quarto entreaberta. A estante de livro ao lado. Uma resposta honesta para a pergunta que ninguém lhe fizera: todos esses livros (romances, poesias, biografias, diários, teatro, teoria literária), tantas leituras são sua estratégia de sobrevivência.
O quê está havendo contigo? Perguntar ao espelho seria tolo. O ato.
A janela do quarto entreaberta. A estante de livro ao lado. Uma resposta honesta para a pergunta que ninguém lhe fizera: todos esses livros (romances, poesias, biografias, diários, teatro, teoria literária), tantas leituras são sua estratégia de sobrevivência.
Memória (Sprache der vögel), obra de Anselm Kiefer, 1989.
movimento fotográfico
lençóis derramados pela cama
as impurezas da superfície branca
não se resumem ao esperma que resta
vislumbro outras máculas
marcas sob a pele em
quartos baratos não
há camareira ou café da manhã
quartos baratos vivem
um dia após o outro
entre baratas e desmemória
sejam luxuosos ou miseráveis
quartos de hotéis são amnésia
faz muito tempo não adormeço
em lugares vazios de lembranças
Yo bromeo nombrándole
Federico la loca
él lanza contra mi cabeza
un pesado libro de poemas,
no recuerdo se del quevedo
góngora o san juan
Los ebrios sonidos
de nuestras risas heren
la piel lunar de fuente vaqueros
De la bucólica paisaje
tus manos jóvenes
cogen signos de la muerte
y del cristo el mismo
hombredios que respira
en agónico ritmo
dentro de mi cuerpo
Federico reprueba mi
incredulidad diciéndome
hay oculto en cada poema
no un poeta o un hombre
pero una multitud que
orina, sangra y tiene deseos
tan urgentes cómo el hambre
Federico teje la analogía:
para mantenerte hueco
asesinarás un toro
por día en la arena
de tu cráneo es mejor
creer en la duda
que en la nada
OBS: somente os dois primeiros versos seriam em espanhol, misturaria as línguas, mas segui naturalmente o ritmo que as palavras sugeriram, construindo assim o poema todo no idioma de Federico Garcia Lorca.
Tantas pessoas evangelizando na manhã de sábado.
Atravesso o centro da cidade com a inseparável camiseta do motörhead, capa do álbum bastards. Barba de um mês por fazer.
Caminhamos no mesmo rumo por acaso.
Percebo.
A garota ruiva, aparentando uns vinte anos, hesita um instante. Enfim, estende o braço e oferece um folheto escrito "jesus te ama" sobre a imagem de uma flor e um versículo que não li.
Ela diz: - Deus te abençoe!
-Muito obrigado. Respondo.
Prosseguimos nossos caminhos. Não olho para trás. Creio que ela também não.
Talvez siga iluminada pela analogia da entrega como semeadura. Sigo pensando "meu bem, sei que também carregas alguma espécie de inferno".
Pesada consciência da espera
corredor mal iluminado
a claridade da manhã
perde-se pelo labirinto
lâmpadas elétricas estão
distantes como estrelas
os olhos fundos
tornam-se abissais
na penumbra
Pesada consciência da espera
o pensador de Rodin
mão esculpida
sob a mandíbula
belos músculos
imersos em luz
e sombras
Sem esperanças: a espera
um homem com
a mão no queixo
finos e frágeis dedos
unhas roídas até a carne
Em estado
bruto: pedra
incomunicável
Pesada consciência da espera
No corpo
da praça
o pombo
negro como
um corvo
se curva
sobre alguns
farelos
Cheiro de maconha
vodca com refrigerante
beijos adolescentes
crianças elétricas
um único livro aberto
é possível
que outro
crânio
esteja
construindo
um poema
Vejo o pombo
negro como
um corvo:
certo dia Edgar
delirou sozinho
numa rua vazia
de Baltimore
Quem pensaria isso
entre o movimento
pendular do balanço
e bicicletas cor de rosa?
Aquele que lê
o único livro
aberto no corpo
da praça
Aquele que insiste
em imagens do tipo:
como prenúncio
calaram-se todos
os pássaros
Imagem: Nan Goldin
penso num galho seco
penso que o outono
desnuda as árvores
penso nisso tudo
enquanto vejo:
o corpo magro se curva
arqueia-se para acender
o cigarro e a concha
da mão protege a chama
da brisa que sopra contra
a vitrine compõe uma
imagem dupla
já não lembro
qual das duas
contemplo ou
se apenas
busco
com os olhos
os livros
atrás do vidro
servindo de
efêmero espelho
para a mulher
que aparenta
ser mais velha
do que real
mente
é
Tempestade liberta
a noite da inércia
de olhar fixo
para o nada
Vendaval tormenta
temporal palavras
que oferecem
estranho conforto
Faz parte do corpo
a janela aberta
Relâmpagos doam
o breve incêndio
dos sonhos que
se vão abruptos
Faz parte do corpo
o chamamento: me
veja de bem perto.
Pergunte-me porquê
ao pousar
as pupilas
são insetos
que elegem
a pele
leito de morte
ideal
a noite da inércia
de olhar fixo
para o nada
Vendaval tormenta
temporal palavras
que oferecem
estranho conforto
Faz parte do corpo
a janela aberta
Relâmpagos doam
o breve incêndio
dos sonhos que
se vão abruptos
Faz parte do corpo
o chamamento: me
veja de bem perto.
Pergunte-me porquê
ao pousar
as pupilas
são insetos
que elegem
a pele
leito de morte
ideal
Palavra alguma
aflora fora
do corpo
ar
árido
nega a sonora
existência
das aves
Palavra: verbo
Vê-se surgir
exposto aos rugidos
Voz: insurge-se
contra sólidos
caninos
Solidão: não
podemos perpetuar
o silêncio
Dentes e mandíbula
o rumor com que mordo
a maçã
ecoa no crânio
a manhã
esculpida por pássaros
aflora fora
do corpo
ar
árido
nega a sonora
existência
das aves
Palavra: verbo
Vê-se surgir
exposto aos rugidos
Voz: insurge-se
contra sólidos
caninos
Solidão: não
podemos perpetuar
o silêncio
Dentes e mandíbula
o rumor com que mordo
a maçã
ecoa no crânio
a manhã
esculpida por pássaros
Ela tem alzheimer
Ela tem os olhos
esculpidos em mármore
Ela melhorou um pouco
ao conviver com outros
no asilo, disseram
Ela não tem
memória recente
guardará muito bem
os meus segredos
no definitivo esquecimento:
Foram só dois ou três
segundos, lhe contei
Não contei mas haviam
dezenas de pílulas
pensei em engoli-las
todas nesses três ou dois
segundos, mas depois
tomei apenas uma para dor
de cabeça embora nem
doesse tanto mas
queria algo mais
dissolvendo-se dentro
do corpo
e não só
o sentido
das coisas
Ela tem os olhos
esculpidos em mármore
Ela melhorou um pouco
ao conviver com outros
no asilo, disseram
Ela não tem
memória recente
guardará muito bem
os meus segredos
no definitivo esquecimento:
Foram só dois ou três
segundos, lhe contei
Não contei mas haviam
dezenas de pílulas
pensei em engoli-las
todas nesses três ou dois
segundos, mas depois
tomei apenas uma para dor
de cabeça embora nem
doesse tanto mas
queria algo mais
dissolvendo-se dentro
do corpo
e não só
o sentido
das coisas
O caroço: arremessei-o
pela sacada no vazio
que separa o quarto
andar do estacionamento
A saliva guarda o doce
sabor da ameixa
Houve um homem
que jamais se queixava
à deriva no fluxo
Mãos trêmulas
ao escrever
a palavra leme
A poesia precisa de lema
ou imagens libertárias?
Ou basta a presença
do eu-lírico que será
fatalmente lido
como alter ego do poeta
que bebera uma garrafa de vinho
e agora arremessa o caroço
de ameixa sem ao menos
levantar-se do chão da sala
ou fechar o livro
de poesias
já passada a meia-noite
pela sacada no vazio
que separa o quarto
andar do estacionamento
A saliva guarda o doce
sabor da ameixa
Houve um homem
que jamais se queixava
à deriva no fluxo
Mãos trêmulas
ao escrever
a palavra leme
A poesia precisa de lema
ou imagens libertárias?
Ou basta a presença
do eu-lírico que será
fatalmente lido
como alter ego do poeta
que bebera uma garrafa de vinho
e agora arremessa o caroço
de ameixa sem ao menos
levantar-se do chão da sala
ou fechar o livro
de poesias
já passada a meia-noite
Eis o que resta: sobra o insosso
ossos no canto do prato
A carne mal passada
tinge a saliva de um
vermelho esmaecido
Já os tomates
atingem o ápice
próximo ao podre
Ritual diário: ler as cores
intensas ao entardecer
Com carinho enviarei o livro
novo, intacto. Pronto
para acolher a história
do teu toque o óleo
da pele, o peso
dos dedos ao folheá-lo
Os olhos passarão
sobre como a sombra
de um pássaro
Poderá o corpo
receber o novo
amor como
página em branco?
Valiosa é a dúvida
e não a resposta
Os pratos por lavar
na pia o ato pendente
um fato insignificante
perante a busca
ossos no canto do prato
A carne mal passada
tinge a saliva de um
vermelho esmaecido
Já os tomates
atingem o ápice
próximo ao podre
Ritual diário: ler as cores
intensas ao entardecer
Com carinho enviarei o livro
novo, intacto. Pronto
para acolher a história
do teu toque o óleo
da pele, o peso
dos dedos ao folheá-lo
Os olhos passarão
sobre como a sombra
de um pássaro
Poderá o corpo
receber o novo
amor como
página em branco?
Valiosa é a dúvida
e não a resposta
Os pratos por lavar
na pia o ato pendente
um fato insignificante
perante a busca
I
Porta fechada. Não
a porta fechada: ato
impessoal de mecanismos
constituídos por chave
maçaneta nomeando
o estar dentro ou fora
A porta fechada. Não
o fato descarnado
assomando-se ao ossuário
cotidiano. Não imagem
onde equivalem os signos
impermanência e cicatriz
Sim
a porta
desoladoramente
fechada
Sim
os olhos
inconsoláveis
leem a aparente
eternidade da porta
fechada
II
Presença indevassável
Silêncio tátil
Superfície sóbria
A cor fria
A porta fechada
Fora:
a mão
nó dos dedos
nódoas azuladas
hematomas imobilidade
Dentro:
o apartamento
vazio
suas
memórias
Porta fechada. Não
a porta fechada: ato
impessoal de mecanismos
constituídos por chave
maçaneta nomeando
o estar dentro ou fora
A porta fechada. Não
o fato descarnado
assomando-se ao ossuário
cotidiano. Não imagem
onde equivalem os signos
impermanência e cicatriz
Sim
a porta
desoladoramente
fechada
Sim
os olhos
inconsoláveis
leem a aparente
eternidade da porta
fechada
II
Presença indevassável
Silêncio tátil
Superfície sóbria
A cor fria
A porta fechada
Fora:
a mão
nó dos dedos
nódoas azuladas
hematomas imobilidade
Dentro:
o apartamento
vazio
suas
memórias
O homem estranho
acolheu a dúvida
porquê abrigar-se
da chuva?
No meio da rua
o homem estranho
contempla as nuvens
como se fossem a nave
de inatingível catedral
Ratos em pânico
desviam do estranho
homem em busca
de marquises ou
o interior de cafeterias
onde manterem-se secos
Os mendigos encontram abrigo
acendem cigarros amassados
Os cristãos encontram abrigo
e dão graças a deus por isso
- É bom a chuva lavar as ruas!
Boceja a boca vazia de beijos
- A previsão do tempo acertou!
Respondem lábios onde o sumo
do sexo resume-se à memória
Ninguém está a salvo
A chuva do fim de tarde
contra a vidraça dos olhos
Ouvem o rumor torrencial
língua lasciva no ouvido
lambendo o lóbulo
Ninguém está a salvo
O homem estranho
veste o líquido manto
Profere palavras
incomunicáveis ao lume
débil dos homens:
- Você ainda quer mudar o mundo?
- Você julga ridícula a poesia?
- Você sonha uma foda rápida no mictório?
- Todos vocês conhecem a expressão "cape diem",
mas já leram Horácio?
Ninguém está a salvo
Vislumbremos a verdade
entre nossos ossos
Reconheçamos nossa miséria
Sem máscaras seremos
verdadeiros amigos
Imagens metáforas
a carne das palavras
elevam a inconsolável
lucidez ao ápice
da linguagem
A música soa suave
ao acariciar a superfície
mas permita à poesia
anunciar o ritmo subterrâneo
Whitman ofereceu a mão
Lorca aceitou o convite
se amaram
sem medo
sobre o leito
de folhas
acolheu a dúvida
porquê abrigar-se
da chuva?
No meio da rua
o homem estranho
contempla as nuvens
como se fossem a nave
de inatingível catedral
Ratos em pânico
desviam do estranho
homem em busca
de marquises ou
o interior de cafeterias
onde manterem-se secos
Os mendigos encontram abrigo
acendem cigarros amassados
Os cristãos encontram abrigo
e dão graças a deus por isso
- É bom a chuva lavar as ruas!
Boceja a boca vazia de beijos
- A previsão do tempo acertou!
Respondem lábios onde o sumo
do sexo resume-se à memória
Ninguém está a salvo
A chuva do fim de tarde
contra a vidraça dos olhos
Ouvem o rumor torrencial
língua lasciva no ouvido
lambendo o lóbulo
Ninguém está a salvo
O homem estranho
veste o líquido manto
Profere palavras
incomunicáveis ao lume
débil dos homens:
- Você ainda quer mudar o mundo?
- Você julga ridícula a poesia?
- Você sonha uma foda rápida no mictório?
- Todos vocês conhecem a expressão "cape diem",
mas já leram Horácio?
Ninguém está a salvo
Vislumbremos a verdade
entre nossos ossos
Reconheçamos nossa miséria
Sem máscaras seremos
verdadeiros amigos
Imagens metáforas
a carne das palavras
elevam a inconsolável
lucidez ao ápice
da linguagem
A música soa suave
ao acariciar a superfície
mas permita à poesia
anunciar o ritmo subterrâneo
Whitman ofereceu a mão
Lorca aceitou o convite
se amaram
sem medo
sobre o leito
de folhas
Olhar náufrago
refém do fluxo
remar com os próprios braços
é um gesto inútil
Mas o discurso ininterrupto
reconduz os olhos à orla
Lábios rosas prosseguem o monólogo:
- Sabe quando tudo está equilibrado, mas seu coração inquieta-se,
escolhe o caminho mais difícil e você não quer lutar contra esse impulso?
Pressinto uma espécie de apocalipse próximo!
O corpo de onde alçaram as pupilas náufragas,
assente, monossilábico:
-Sim.
Ao lado,
garrafas long neck
recendem à cerveja.
A maré cheia
cresce em rumor
aproxima dos pés
a linha de espuma
refém do fluxo
remar com os próprios braços
é um gesto inútil
Mas o discurso ininterrupto
reconduz os olhos à orla
Lábios rosas prosseguem o monólogo:
- Sabe quando tudo está equilibrado, mas seu coração inquieta-se,
escolhe o caminho mais difícil e você não quer lutar contra esse impulso?
Pressinto uma espécie de apocalipse próximo!
O corpo de onde alçaram as pupilas náufragas,
assente, monossilábico:
-Sim.
Ao lado,
garrafas long neck
recendem à cerveja.
A maré cheia
cresce em rumor
aproxima dos pés
a linha de espuma
O comportamento das cápsulas
imersas nos sucos gástricos
lentamente se dissolvendo
desejara a rapidez efervescente
do anti-ácido num copo de água
Para um célere alívio
o ideal seriam drogas
intravenosas
Áspera consciência da espera
Quanto tempo até
diluírem-se tantas?
Interroga Alejandra
Encomendara ao taxidermista
a alma vazia de vísceras
modelada com um fixo
semi-sorriso estilo monalisa
O homem virá de táxi
Áspera consciência da espera
imersas nos sucos gástricos
lentamente se dissolvendo
desejara a rapidez efervescente
do anti-ácido num copo de água
Para um célere alívio
o ideal seriam drogas
intravenosas
Áspera consciência da espera
Quanto tempo até
diluírem-se tantas?
Interroga Alejandra
Encomendara ao taxidermista
a alma vazia de vísceras
modelada com um fixo
semi-sorriso estilo monalisa
O homem virá de táxi
Áspera consciência da espera
O corpo busca
signos vegetais
que traduzam
a imobilidade
Se não há dor
impedindo ações
há a dúvida
há interrogações
o porquê disso?
qual o sentido?
A febre revela
uma possível resposta:
houvesse outros olhos perto
guardados em segredo
por pálpebras coloridas
órbitas fechadas em si
sentindo a alma
de um violoncelo
houvesse uma presença
de bruços na penumbra
a linha irregular
das vértebras desenhando
a trama delicada
entre luz e sombra
Haveria movimento
signos vegetais
que traduzam
a imobilidade
Se não há dor
impedindo ações
há a dúvida
há interrogações
o porquê disso?
qual o sentido?
A febre revela
uma possível resposta:
houvesse outros olhos perto
guardados em segredo
por pálpebras coloridas
órbitas fechadas em si
sentindo a alma
de um violoncelo
houvesse uma presença
de bruços na penumbra
a linha irregular
das vértebras desenhando
a trama delicada
entre luz e sombra
Haveria movimento
Interrogo o luto:
legítimo esculpi-lo
ou aceder ao desejo
de quedar mudo
Entre palavras busco
traduzir o negrume
denso mas não inexorável:
débil lume escreve
a palavra esperança
tão incomunicável
a olhos lúcidos
quanto a imagem
do luto
Interrogo-me: luto
com a matéria bruta
e a esculpo ou
acedo à inércia
contemplando a ideia
amorfa?
A dúvida torna-se
essência do poema
o luto permanece
uma palavra negra
legítimo esculpi-lo
ou aceder ao desejo
de quedar mudo
Entre palavras busco
traduzir o negrume
denso mas não inexorável:
débil lume escreve
a palavra esperança
tão incomunicável
a olhos lúcidos
quanto a imagem
do luto
Interrogo-me: luto
com a matéria bruta
e a esculpo ou
acedo à inércia
contemplando a ideia
amorfa?
A dúvida torna-se
essência do poema
o luto permanece
uma palavra negra
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