O coração que não esteve
solitário sobre um píer
vivendo a enseada anoitecida,
não compreenderá a alma
dos lumes que flutuam
em tuas pupilas
O coração que não esteve
à deriva por rumores marinhos
não compreenderá porque reli
Brodsky traduzir o olor de algas
que recende de Veneza
e da infância báltica
O coração nunca ferido
por brancas lâminas
não compreenderá a analogia
entre a Vênus anadiômena
e a musa emersa
de negros mantos
que declamam com violência
sua nudez lunar
Não creio
que o espírito
dos monges
permaneça sereno
por longo tempo:
signo
imóvel
vinho
no bojo
de um jarro
Minha alma,
miserável será a garrafa
que te acolher como metáfora
Não poderia compô-la
corpo imune
à visceralidade dos dedos
serpente em torno
sedenta para entorná-la
no vazio de uma taça
ou direto na boca.
que o espírito
dos monges
permaneça sereno
por longo tempo:
signo
imóvel
vinho
no bojo
de um jarro
Minha alma,
miserável será a garrafa
que te acolher como metáfora
Não poderia compô-la
corpo imune
à visceralidade dos dedos
serpente em torno
sedenta para entorná-la
no vazio de uma taça
ou direto na boca.
Um amigo
que fora monge
beneditino
disse: em êxtase
Santa Teresa
era imune
às chamas
Vejo suas mãos
tornarem-se pássaros
acesos
Meu amigo
abandonou
o monastério
talvez porque
o fogo da dúvida
já não era indolor
Imagino versos
dignos de Maldoror:
Como um sapato que machuque os pés,
abandoneis vossa fé.
Sinta toda lascívia da água e do barro
ao amparar vossos passos.
Meu amigo os leria sem tesão
porque Deus ainda sussurra
pelas suas sendas
Apenas a rotina ritual
o voto de silêncio
a castidade, o claustro
desabavam como pálpebras
calando o horizonte
Somente o autoflagelo
permitia externar
seu inferno.
Por quinze anos os pés acariciaram desertos. Alimentou-se de vermes, saciou-se na mesma fonte que os predadores.
Por quinze anos uma luz impura que induz ao suicídio, dividiu entre noites e dias o desamparo.
Por quinze anos a revelação navegou ilegível pelos leitos noturnos: Odisseu retornando à Ítaca.
Por quinze anos creu ser destinado à mendicância.
Somente livros de poesia, discos de rock e garrafas de vinho ofereciam alívio.
Mas, eis que a estrela fez-se insígnia.
Em um corpo lunar, lábios rubros
conclamam: siga a sua loucura.
Não tema as mãos permanecerem trêmulas
inverta a ampulheta
e avive o movimento.
Poema de Rafael Cadenas parte da obra Una Isla, 1958.
Sob sons selvagens a bailarina dança na noite
suja.
Carvão vegetal.
O hálito verde do seu corpo que gira em um poço azul
banha as mesas.
Seu sorriso na densa luz dilacera olhos inseguros.
À porta alguém vela.
Con sonidos de selva la bailarina danza en la noche
sucia.
Carbón vegetal.
El hálito verde de su cuerpo que gira en un pozo azul
sapica las mesas.
Su risa en la densa luz rasga ojo inseguros.
A la puerta alguien vela.
Trad. Gustavo Petter.
Taça que exala
sangue e urina
nomeio teu crime:
novo vinho
Bebida que exalta
aos incrédulos
Somos dignos
do brinde
Anjos caídos
são ainda anjos
Toda palavra
soa imprópria
seus signos absolutos
como a morte
Procuremos no silêncio
a tradução, símbolos
que não semeiem
cadáveres
O poeta e a musa
alçam a santidade
tornando-se
uma só catedral
de ossos tramados.
sangue e urina
nomeio teu crime:
novo vinho
Bebida que exalta
aos incrédulos
Somos dignos
do brinde
Anjos caídos
são ainda anjos
Toda palavra
soa imprópria
seus signos absolutos
como a morte
Procuremos no silêncio
a tradução, símbolos
que não semeiem
cadáveres
O poeta e a musa
alçam a santidade
tornando-se
uma só catedral
de ossos tramados.
Modorra felina
nos braços da poltrona
Sou o dono assolado
por inquietudes
Ao ler poesia chinesa
Ao ler poesia chinesa
quis habitar o tempo
que pulsa próximo
ao da poça de chuva
Mas, soa ilegível
o incêndio de vozes
Que partitura traduziria
o estilhaçar de uma taça
plena de vinho
e lábios inscritos
diante da sede
dionisíaca?
Canção para um show de rock
Não temos fé
do outro lado desta vida
espere somente o rock and roll
disse a caveira que há entre minhas mãos
dance, dance o rock and roll
para o rock o tempo e a vida são uma miséria
o álcool e o haxixe não dizem nada da vida
sexo, drogas e rock and roll
o sol não brilha pelo homem,
nem o sexo e as drogas:
a morte é o berço do rock and roll.
Dance até que a morte te chame
e diga suavemente entre
entre do reino do rock and roll.
Canción para una discoteca.
No tenemos fe
al otro lado de esta vida
sólo espera el rock and roll
lo dice la calavera que hay entre mis manos
baila, baila el rock and roll
para el rock el tiempo y la vida son una miseria
el alcohol y el hashis no dicen nada de la vida
sexo, drogas y rock and roll
el sol no brilla por el hombre,
lo mismo que el sexo y las drogas:
la muerte es la cuna del rock and roll.
Baila hasta que la muerte te llame
y diga suavemente entra
entra en el reino del rock and roll
Poema de Leopoldo María Panero, tradução de Gustavo Petter.
Contra España y otros poemas de no amor (1990)
Não permitem a ela permanecer
com os braços abertos
em forma de cruz
Deve-se cruzá-los à altura do ventre
ou estendê-los ao longo do corpo
Prevenindo assim que os poetas
teçam analogias com a crucificação
Não permitem ao olhar
permanecer fixo no azul
Órbitas vítreas simbolizam
com demasiada crueza o silêncio
É doloroso recordar a musa anônima
do poema Greenwich Village Suicide
de Gregory Corso
Uma superdose de antidepressivos
seria o suicídio mais óbvio
e o cadáver transpareceria serenidade
Um ininterrupto ruído paira sobre o público. Assemelha-se ao zumbido de insetos. Penso no som de microfonia. Os olhos da plateia buscam pelo auditório, voo estúpido no espaço vazio, alguma resposta. Enquanto o professor doutor expõem o laudo sobre as vísceras da poesia.
Cabeças enfileiradas, que sobre vossos cabelos e calvície pouse o impiedoso pássaro da palavra desolação. Assole vosso espírito a árida lucidez com a qual compreenderão os extremos da difícil palavra: pétrea presença lança-nos ao vazio abissal.
Ombros amparam o pouso da palavra, ave de estimação não alça voo distante do meu corpo. Cabeças enfileiradas sede irmãs da áspera beleza, contemplem a violência da palavra desolação. Só então construam poemas com a carne e alma atormentada de outras palavras.
Espécie endêmica do éden:
Serpente que enreda-se
nos ramos da macieira
Silvo semelhante à voz humana
torna compreensível cada signo
Espécie endêmica
do paraíso: a macieira
esplêndida por seu viço
Diferencia-se das demais árvores
pelos frutos interditos ao consumo
de todo espécime animal
Obs: a espécie expulsa
por inadaptação ao ambiente
subdivide-se em dois grupos
Os que buscam readaptar
o modus vivendi
ao antigo habitat
para reconquistá-lo
E os que desenvolveram
apuradas técnicas
e cultivam o fruto maldito
em terras distantes ao éden
Serpente que enreda-se
nos ramos da macieira
Silvo semelhante à voz humana
torna compreensível cada signo
Espécie endêmica
do paraíso: a macieira
esplêndida por seu viço
Diferencia-se das demais árvores
pelos frutos interditos ao consumo
de todo espécime animal
Obs: a espécie expulsa
por inadaptação ao ambiente
subdivide-se em dois grupos
Os que buscam readaptar
o modus vivendi
ao antigo habitat
para reconquistá-lo
E os que desenvolveram
apuradas técnicas
e cultivam o fruto maldito
em terras distantes ao éden
Nicole Kidman interpretando Virgínia Woolf em The Hours.
Sobre o grande gramado
crianças apiedam-se
de um pássaro morto
o tempo é outro
regendo seu corpo
Árvores frondosas
respiramos tua sombra
esquecidos que houve
o fruto entre as folhas
cujas cores proferiam o podre
e a náusea nos impedia de colhê-lo
Ilegível aos olhos humanos
poderão os anjos lê-lo?
Difícil signo elegido
pela poesia como insígnia
de uma praça inscrita
no coração da cidade:
Dia ainda luminoso
quando enforcou-se
o andarilho encenando
um fruto suspenso
Para a ceia indigesta
reuniram-se os homens
O jornal local interpelou
testemunhas que viram
um estrangeiro esmolar
por ruas próximas
na desolação da tarde
Não há memórias
no olhar maciço
o busto de bronze
apenas ampara
o pouso dos pombos
Difícil signo elegido
pela poesia como insígnia
de uma praça inscrita
no coração da cidade:
crianças apiedarem-se
de um pássaro morto
Sobre a poça de chuva
um cachorro
detém os passos
e bebe
Brilham as ruas
ainda úmidas
Bela atmosfera
oriental
pacifica o poema
mas, a latente
inquietude
das palavras
precisa traduzir-se:
Poça de chuva
de rasa lâmina
refletido o céu
a reescreve
profundidade abissal
Onde cravam-se
as quatro patas do cão
que sedento
sorve o abismo
Soa a doce e ininterrupta
voz que conduz os frutos
ao seu ápice noturno.
Assemelha-se ao sono
povoado pela difícil
sinfonia dos pesadelos.
Lâmina que transpassa a maçã,
assim entrega-se à travessia
o homem que compreende
para os dias de paz ou dúvida
o rumo inscrito no corpo:
rumor das palavras
interna luta sem trégua.
voz que conduz os frutos
ao seu ápice noturno.
Assemelha-se ao sono
povoado pela difícil
sinfonia dos pesadelos.
Lâmina que transpassa a maçã,
assim entrega-se à travessia
o homem que compreende
para os dias de paz ou dúvida
o rumo inscrito no corpo:
rumor das palavras
interna luta sem trégua.
Anotações de um estrangeiro:
Os ponteiros extáticos
na estação rodoviária
sustentam o aceno
em eterna despedida
O trem cargueiro
impõem seu compasso
à manhã da metrópole
Penso em Jack Kerouac
e nos trilhos como cicatrizes
No pátio da universidade
duas horas contemplando
a dança das árvores
A alma compreende o vento
com os olhos fechados
Atmosfera oleosa da pastelaria
a solícita atendente oriental
traz um suco de laranja
Quis contar sobre a bela capa vermelha
da antologia de poesia chinesa que li
Ao crepúsculo os personagens do subsolo
exibem no banheiro público
as tatuagens opacas e o pau duro
Súbito percebo que hoje
não mirei o céu
uma única vez
Ponteiros fixos às cinco horas em ponto
de uma tarde esquecida
Lembram-me o pranto de García Lorca
Relógio imóvel da estação rodoviária
Serias ingênuo em insurgir-se contra o tempo
Traduzo tua recusa
como busca por serenidade
Estás tão tranquilo
sem os ruídos das engrenagens
roendo-te as vísceras
Os ponteiros extáticos
na estação rodoviária
sustentam o aceno
em eterna despedida
O trem cargueiro
impõem seu compasso
à manhã da metrópole
Penso em Jack Kerouac
e nos trilhos como cicatrizes
No pátio da universidade
duas horas contemplando
a dança das árvores
A alma compreende o vento
com os olhos fechados
Atmosfera oleosa da pastelaria
a solícita atendente oriental
traz um suco de laranja
Quis contar sobre a bela capa vermelha
da antologia de poesia chinesa que li
Ao crepúsculo os personagens do subsolo
exibem no banheiro público
as tatuagens opacas e o pau duro
Súbito percebo que hoje
não mirei o céu
uma única vez
Ponteiros fixos às cinco horas em ponto
de uma tarde esquecida
Lembram-me o pranto de García Lorca
Relógio imóvel da estação rodoviária
Serias ingênuo em insurgir-se contra o tempo
Traduzo tua recusa
como busca por serenidade
Estás tão tranquilo
sem os ruídos das engrenagens
roendo-te as vísceras
Poema de Rafael Cadenas
Imagem: Ricardo Armas em http://el-placard.blogspot.com.br/2012/04/poemas-de-rafael-cadenas.html
DerrotaEu que nunca tive um emprego
que ante todo adversário me senti débil
que perdi os melhores troféus para a vida
que apenas chego em um lugar já quero partir (crendo que mudar é uma solução)
que sou subestimado e recusado pelos mais hábeis
que me seguro nas paredes para não cair
que sou motivo de piada para mim mesmo por crer
que meu pai seria eterno
que sou humilhado por professores de literatura
que um dia perguntei em que poderia ajudar e a resposta foi uma gargalhada
que não poderei nunca ter um lar, nem ser brilhante ou triunfar na vida
que sou abandonado pelas pessoas por ser tão calado
que sinto vergonha por atos que não pratiquei
que falta pouco para que eu corra louco pelas ruas
que perdi o equilíbrio que nunca tive
que me tornei piada para muita gente por viver no limbo
que não encontrarei nunca quem me suporte
que fui preterido por pessoas mais miseráveis que eu
que seguirei a vida toda assim e ano que vem serei muitas vezes mais ridicularizado por minha
boba ambição
que estou cansado de receber conselhos de outros mais entorpecidos que eu (Ex: você é muito preguiçoso, tenha ânimo, desperte)
que nunca poderei viajar para a Índia
que recebo favores sem dar nada em troca
que percorro a cidade de um lado a outro como uma pluma
que me deixo levar pelos outros
que não tenho personalidade nem quero tê-la
que todo dia calo minha rebelião
que não lutei nas guerrilhas
que não fiz nada por meu povo
que não sou das FALN* e me desespero por todas essas coisas e por outras impossíveis de enumerar
que não posso sair de minha prisão
que sou qualificado em todo canto como inútil
que na realidade não pude casar nem ir para Paris nem ter um dia sereno
que sempre babo sobre minha história
que sou idiota e mais que idiota de nascimento
que perdi o rumo do discurso que soava em mim e não pude reencontrar
que não choro quando sinto desejo de chorar
que me atraso em tudo
que sou arruinado por tanta marcha e contramarcha
que anseio a imobilidade perfeita e a pressa impecável
que não sou o que sou nem o que não sou
que apesar de tudo tenho um orgulho satânico ainda que em certas horas tenha sido humilde
até igualar-me às pedras
que vivi quinze anos no mesmo círculo
que me julguei predestinado para algo extraordinário e nada conquistei
que nunca usarei gravata
que não encontro meu corpo
que percebi por lampejos minha falsidade e não pude destruir-me, varrer tudo e criar
da minha indolência, da minha
flutuação, do meu extravio um ar novo, e obstinadamente
meu suicídio ao alcance da mão
me levantarei do chão mais ridículo ainda para seguir zombando dos outros e de mim até o dia
do juízo final.
Da obra Falsas manioblas, 1966.
* FALN: Fuerzas Armadas de Liberación Nacional puertorriqueña.
Derrota
Yo que no he tenido nunca un oficio
que ante todo competidor me he sentido débil
que perdí los mejores títulos para la vida
que apenas llego a un sitio ya quiero irme (creyendo que mudarme es una solución)
que he sido negado anticipadamente y escarnecido por los más aptos
que me arrimo a las paredes para no caer del todo
que soy objeto de risa para mí mismo que creí
que mi padre era eterno
que he sido humillado por profesores de literatura
que un día pregunté en qué podía ayudar y la respuesta fue una risotada
que no podré nunca formar un hogar, ni ser brillante, ni triunfar en la vida
que he sido abandonado por muchas personas porque casi no hablo
que tengo vergüenza por actos que no he cometido
que poco me ha faltado para echar a correr por la calle
que he perdido un centro que nunca tuve
que me he vuelto el hazmerreír de mucha gente por vivir en el limbo
que no encontraré nunca quién me soporte
que fui preterido en aras de personas más miserables que yo
que seguiré toda la vida así y que el año entrante seré muchas veces más burlado en mi ridícula ambición
que estoy cansado de recibir consejos de otros más aletargados que yo («Ud. es muy quedado, avíspese, despierte»)
que nunca podré viajar a la India
que he recibido favores sin dar nada en cambio
que ando por la ciudad de un lado a otro como una pluma
que me dejo llevar por los otros
que no tengo personalidad ni quiero tenerla
que todo el día tapo mi rebelión
que no me he ido a las guerrillas
que no he hecho nada por mi pueblo
que no soy de las FALN y me desespero por todas estas cosas y por otras cuya enumeración sería interminable
que no puedo salir de mi prisión
que he sido dado de baja en todas partes por inútil
que en realidad no he podido casarme ni ir a París ni tener un día sereno
que me niego a reconocer los hechos
que siempre babeo sobre mi historia
que soy imbécil y más que imbécil de nacimiento
que perdí el hilo del discurso que se ejecutaba en mí y no he podido encontrarlo
que no lloro cuando siento deseos de hacerlo
que llego tarde a todo
que he sido arruinado por tantas marchas y contramarchas
que ansío la inmovilidad perfecta y la prisa impecable
que no soy lo que soy ni lo que no soy
que a pesar de todo tengo un orgullo satánico aunque a ciertas horas haya sido humilde hasta igualarme a las piedras
que he vivido quince años en el mismo círculo
que me creí predestinado para algo fuera de lo común y nada he logrado
que nunca usaré corbata
que no encuentro mi cuerpo
que he percibido por relámpagos mi falsedad y no he podido derribarme, barrer todo y crear de mi indolencia, mi
flotación, mi extravío una frescura nueva, y obstinadamente me suicido al alcance de la mano
me levantaré del suelo más ridículo todavía para seguir burlándome de los otros y de mí hasta el día del juicio final.
Um poeta interpela outro:
- O que te angustia
à hora noturna
que antecede o sono?
- A nova escova de dentes
que lacera-me as gengivas.
- Ao menos lembrarás
os filetes de sangue do poema
de Ana Cristina César.
- Mas há tais signos no parnaso?
- Sim, e também sêmen, suor, saliva,
urina e todos os fluidos vitais imagináveis!
- Podemos com imagens
dissolver símbolos sólidos?
- Lógico, por exemplo, quando
o líquido esqueleto dos afogados
inquieta a maré baixa dos olhos
e deixa ler os versos submersos.
- O que te angustia
à hora noturna
que antecede o sono?
- A nova escova de dentes
que lacera-me as gengivas.
- Ao menos lembrarás
os filetes de sangue do poema
de Ana Cristina César.
- Mas há tais signos no parnaso?
- Sim, e também sêmen, suor, saliva,
urina e todos os fluidos vitais imagináveis!
- Podemos com imagens
dissolver símbolos sólidos?
- Lógico, por exemplo, quando
o líquido esqueleto dos afogados
inquieta a maré baixa dos olhos
e deixa ler os versos submersos.
ouvir os sábios anciãos
narrarem a fábula do homem
que colheu uma corola
sonhando carregá-la consigo
sob sol e chuva
sem perder o viço
até a derradeira hora do dia
Mas ao crepúsculo
estavam murchas as pétalas
somente a memória
mantinha-se viva
Coração não te quero intacto
Vislumbro-te dilacerado
entre vigorosos caninos
Tingindo de rubro
a túnica das musas
Coração te quero página
para o pouso aceso
dos pássaros que dissipam
o sono das pálpebras
Coração te quero página
para os pesadelos que equilibram-se
na ponta dos cílios
contemplando o olhar vazio
do abismo
A sabedoria do espírito
aconselha-te o momento exato
em que o silêncio torna-se fértil
e as vísceras da terra
despertarão a semente.
Todo o ciclo passa por teus dedos,
da semeadura à colheita.
Estrelas eclodem na treva.
Estranhos homens leem como lenitivo
símbolo dissipador da dúvida,
língua alheia ao naufrágio.
Mas Deus permanece ilegível
O idioma submarino de Maldoror
não maldiria a árvore sem sombra ou fruto
o grão estéril no desespero dos olhos.
aconselha-te o momento exato
em que o silêncio torna-se fértil
e as vísceras da terra
despertarão a semente.
Todo o ciclo passa por teus dedos,
da semeadura à colheita.
Estrelas eclodem na treva.
Estranhos homens leem como lenitivo
símbolo dissipador da dúvida,
língua alheia ao naufrágio.
Mas Deus permanece ilegível
O idioma submarino de Maldoror
não maldiria a árvore sem sombra ou fruto
o grão estéril no desespero dos olhos.
Ilustração de René Magritte para Les Chants de Maldoror.
É plausível que desde menino
a paz do bom pasto
não lhe seduzisse
Compreende tal ideia
aquele que não lê a vida
feito página bíblica
e aceita o avesso,
influxo percurso
a ser percorrido
Fecundo chão do desejo
ampara os passos
que calçam sapatos acesos
Encontramos refúgio
ao contemplar o sangue
compor vivas corolas
Conto sobre Les Chants de Maldoror
Como a sintaxe do dia
desritma-se quando a carne
agasalha uma navalha
Ou os pesadelos pousam
na ponta dos teus dedos
Um homem move-se pelas margens
pássaros na órbita dos barcos
os pensamentos voam ao redor do crânio
Semelhante a um anjo da guarda
o estranho escriba acompanha-o
registrando insólitos solilóquios
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