Distante sabor sanguíneo
Talvez sejam gengivas enfermas
Talvez seja aquele poema da Ana C.
inscrito dentro semelhante à memória
da criança descobrindo que o sangue
tem sabor de ferrugem
A língua investiga os
significados sanguíneos
Assim reage o corpo
ao pugilismo das palavras
displicente o indicador
conduz a xícara vazia
pendurada pela asa
fixo olhar do ciclope
solitário girassol adorna
a cerâmica barata
não comungo nenhuma
cerimônia do chá
não há formalidades
a serem subvertidas
o sol matinal
ainda não aqueceu
o vento e já li
dezenas de poemas
estranho prazer
equilibrar a fragilidade
pelas margens da
palavra queda
não tremem as mãos
confiam que renomearei
os estilhaços: jardim
de pétalas afiladas
conduz a xícara vazia
pendurada pela asa
fixo olhar do ciclope
solitário girassol adorna
a cerâmica barata
não comungo nenhuma
cerimônia do chá
não há formalidades
a serem subvertidas
o sol matinal
ainda não aqueceu
o vento e já li
dezenas de poemas
estranho prazer
equilibrar a fragilidade
pelas margens da
palavra queda
não tremem as mãos
confiam que renomearei
os estilhaços: jardim
de pétalas afiladas
Delicadeza semelhante
a das mãos que amparam
um filhote de pássaro
O azul sem nuvens
envolve o voo
silencioso do urubu
Baudelaire ao versar a carniça
libertou a poesia de uma quietude
Agora o poema não exige violência
pode contemplar o putrefato
Tampouco aceita
o olhar intacto
ante as formas
se dissolvendo
a das mãos que amparam
um filhote de pássaro
O azul sem nuvens
envolve o voo
silencioso do urubu
Baudelaire ao versar a carniça
libertou a poesia de uma quietude
Agora o poema não exige violência
pode contemplar o putrefato
Tampouco aceita
o olhar intacto
ante as formas
se dissolvendo
Novas traduções do poeta venezuelano Rafael Cadenas.
PRESENÇA
Rostos,
cores
das roupas,
tons
de pele. Tão imediato!
nos
olhos
cansados
de ser meus.
***
Deixe
que os olhos
se
recuperem de ti.
***
A
única doutrina dos olhos
é
ver.
***
O
que ensinou a leitura aos olhos
apagou
o paraíso.
***
O
dono tem medo.
Os
olhos somente a realidade.
***
Que
pretensão: dar lições aos olhos,
mestres.
***
Se
outro mundo nos é dado
deve
ser este
desde
uns olhos
que
a diafaneidade há subjugado,
Plasmação
ilegível,
herança
escondida,
domínio
hierático.
***
Os
olhos não tem medo
nem
são valentes.
***
Tenho
olhos,
não
pontos de vista.
***
Que
faço
eu
atrás dos olhos?
ABDICAÇÃO
Emudeço
em
meio ao real,
e
o real diz
com
sua linguagem
o
que eu guardo.
Necessita
palavras
um
rosto?
A
flor
quer
sons?
Pede
vocábulos
o
cão, a pedra, o fogo?
Não
se expressam
somente
por estar?
Imensas
bocas
nos
ensurdecem
sem
serem ouvidas.
Calo.
Não vou mais além de meus olhos.
Contido
neste entorno.
PRESENCIA
Rostros,
colores de los trajes,
tonos de piel !tan inmediatos!
em los ojos
cansados de ser míos.
***
Deja que los ojos
se recuperen de ti.
***
La única doctrina de
los ojos
es ver.
***
El que enseño a leer a
los ojos
borró el paraíso.
***
El dueño tiene miedo.
Los ojos sólo tienen
realidad.
***
Qué pretensión: darles
lecciones a los ojos,
maestros.
***
Si outro mundo nos es
dado
debe ser éste
desde unos ojos
que la diafanidad há subyugado,
Plasmación ilegible,
herencia escondida,
dominio hierático.
***
Los ojos no tienen
miedo
ni son valientes.
***
Tengo ojos,
no puntos de vista.
***
?Qué hago
yo detrás de los ojos?
***
ABDICACIÓN
Enmudezco
en medio de lo real,
y lo real dice
con su lenguaje
lo que yo guardo.
?Necesita palabras
un rostro?
?La flor
quiere sonidos?
?Pide vocablos
el perro, la piedra, el
fuego?
?No se expresan
con solo estar?
Inmensas bocas
nos ensordecen
sin ser oídas.
Callo. No voy más allá
de mis ojos.
Me consta este
alrededor.
Traduções
de poemas do livro Memorial (1977), a partir da Antologia (1991).
Não servem de superfície
para o pouso: incitam ao voo
Estendendo sobre elas
o cansaço compreende-se
os limites do corpo
diferentes daqueles
desafiados pelos
montanhistas
Contam a história
da exaustão humana
As palavras negam o silêncio
necessário ao sono
Não queira que nos poemas
as palavras construam acalantos
para o pouso: incitam ao voo
Estendendo sobre elas
o cansaço compreende-se
os limites do corpo
diferentes daqueles
desafiados pelos
montanhistas
Contam a história
da exaustão humana
As palavras negam o silêncio
necessário ao sono
Não queira que nos poemas
as palavras construam acalantos
Lendo tuas cores compreendi a violência de escrever-te sob os significados do silêncio.
Então és o espelho onde aprendo que os crânios percorrem a superfície surdos ao rumor dos animais noturnos. Imperceptíveis os pensamentos acesos, mesmo que os olhos não sejam insondáveis.
Devo estender a todas as coisas (pétalas, livros, ossos) o ensinamento da infância: pousar o ouvido na concha e ouvi-la entoar o mar.
Então és o espelho onde aprendo que os crânios percorrem a superfície surdos ao rumor dos animais noturnos. Imperceptíveis os pensamentos acesos, mesmo que os olhos não sejam insondáveis.
Devo estender a todas as coisas (pétalas, livros, ossos) o ensinamento da infância: pousar o ouvido na concha e ouvi-la entoar o mar.
O percurso construído com passos acesos. Pés avançam oscilando entre lucidez e loucura, certeza e dúvida, vivendo as palavras como a textura do chão.
Quão intenso foi mover-se pela longa superfície desperta para agora, adormecidas as cores, os sons, hora em que toda forma funde-se em sombra ininterrupta, asseverar: a noite será imensa.
Que violenta leitura: essa noite será imensa.
Quão intenso foi mover-se pela longa superfície desperta para agora, adormecidas as cores, os sons, hora em que toda forma funde-se em sombra ininterrupta, asseverar: a noite será imensa.
Que violenta leitura: essa noite será imensa.
mudam alteram
transformam
metamorfoseiam
os verbos
nos versos
dirão não
serem mais os mesmos
embora ilegíveis
da superfície
sob o breve pouso
como estivessem
intactos
serão lidos
pelo desatento pássaro
pode-se confiar na
lúcida leitura
dos próprios olhos?
veem a partir de outro tempo
mais lento e silencioso
diferente matéria os molda
mais densa e calma
a luz que emanam
agora sóbria e amena
não são mais os mesmos
menos elétricos mais ternos
os olhos mantém a vivacidade
que arrefece na carne
transformam
metamorfoseiam
os verbos
nos versos
dirão não
serem mais os mesmos
embora ilegíveis
da superfície
sob o breve pouso
como estivessem
intactos
serão lidos
pelo desatento pássaro
pode-se confiar na
lúcida leitura
dos próprios olhos?
veem a partir de outro tempo
mais lento e silencioso
diferente matéria os molda
mais densa e calma
a luz que emanam
agora sóbria e amena
não são mais os mesmos
menos elétricos mais ternos
os olhos mantém a vivacidade
que arrefece na carne
pombos abrigam-se sob
formas que ornam beirais
assemelha-se a sangue seco
o negro percurso inscrito
pela água na face
anciã da construção
não interrogo
quais outros olhos
somente leio
a lenta chuva
contra a claridade
da manhã
na qual
um homem
anônimo
animalizado
revolve o lixo
do fast food
o silêncio
impalatável
alerta que
o beco
será por
muito tempo
um poema
uma bandeira
formas que ornam beirais
assemelha-se a sangue seco
o negro percurso inscrito
pela água na face
anciã da construção
não interrogo
quais outros olhos
somente leio
a lenta chuva
contra a claridade
da manhã
na qual
um homem
anônimo
animalizado
revolve o lixo
do fast food
o silêncio
impalatável
alerta que
o beco
será por
muito tempo
um poema
uma bandeira
eis o que fazes: fabricas fezes
resume-se em rês: pasce rumina defeca
embora seja pobre analogia
porque és impróprio
ao estômago humano
desejo seja outro o trono
desgovernes tuas próprias vísceras
numa descomunal diarreia
buscaria melhores imagens
para opor à tua dileta: rei
mas sopesar palavras
com o talento ferino
do boca do inferno
não me é natural
inestancável o tempo
transcorrem séculos
e sempre há cus inúteis
ocupando a cúpula
a reger sobre confortáveis
cadeiras giratórias
resume-se em rês: pasce rumina defeca
embora seja pobre analogia
porque és impróprio
ao estômago humano
desejo seja outro o trono
desgovernes tuas próprias vísceras
numa descomunal diarreia
buscaria melhores imagens
para opor à tua dileta: rei
mas sopesar palavras
com o talento ferino
do boca do inferno
não me é natural
inestancável o tempo
transcorrem séculos
e sempre há cus inúteis
ocupando a cúpula
a reger sobre confortáveis
cadeiras giratórias
Cacos
Desconstruiu-os em cacos. Apenas um copo em casa será suficiente. Intacta também
permaneceu a taça em que todas as noites bebe seu vinho, seco porém suave,
enquanto lê, escreve ou nas horas apáticas apenas navega pelo facebook.
Satisfeita, pensa irônica, Personalizei o milagre da multiplicação.
O sol das oito em diante ilumina toda a
cozinha. As margens dos cacos brilham, os vidros transformam a luz em raios
coloridos contra o chão de cerâmica branca. Já é quase hora de sair, depois eu
varro tudo isso. Descalça vai até a sala buscar os sapatos. Interrompe o
solilóquio do apresentador do telejornal desligando, indiferente, o televisor.
Só fala sobre o trânsito de sampa, tô a mais de quinhentos quilômetros da
capital. Precisa algum crime fudido ou explodirem caixas eletrônicos para o
interior se tornar manchete. Calça-os. O percurso de volta não é silencioso, os
vizinhos do andar de baixo, se ainda não foram trabalhar, ouvirão seus passos
ritmados pelos saltos.
Passando em frente à cozinha espera,
contempla o inóspito jardim que acabara de plantar. Caules abruptos, estéreis,
acesos pela claridade matinal. Só três passos sobre e avivaria esse jardim com
pétalas de um vermelho intenso se dissolvendo, escorrendo, tingindo as
transparências. Pensamentos que a percorrem com incrível velocidade, enquanto
mantém o olhar fixo nos copos quebrados.
O governo produziu
material didático
apresentando o passo-a-passo
necessário aos alunos
aprimorarem a prática da apneia.
Divulgou na mídia a nova
proposta educacional.
Olhos atentos leram o oculto:
o projeto quer os jovens
com fôlego bastante
então submersos
no absoluto silêncio
não esbocem gesto
algum de protesto.
A assessoria de imprensa replicou:
a proposta é de primeiro mundo.
O absurdo soou fundo
alunos e professores fartos
organizaram o basta.
O governo ordenou
homens de farda avançarem
sobre os estudantes petulantes.
Cassetetes batem contra os escudos
para impor o ritmo botas pisam forte.
O som da marcha não assombra
o suficiente para romper
a corrente humana.
Cada elo encara resoluto.
Entre os alunos circula
impresso de forma artesanal
um manual que ensina
a reescrever os pulmões:
querê-los amplos onde o vento
invente vozes ao percorrer a verde
lâmina das folhas
soe sábio sobre as superfícies
sopre intenso anunciando tempestades.
material didático
apresentando o passo-a-passo
necessário aos alunos
aprimorarem a prática da apneia.
Divulgou na mídia a nova
proposta educacional.
Olhos atentos leram o oculto:
o projeto quer os jovens
com fôlego bastante
então submersos
no absoluto silêncio
não esbocem gesto
algum de protesto.
A assessoria de imprensa replicou:
a proposta é de primeiro mundo.
O absurdo soou fundo
alunos e professores fartos
organizaram o basta.
O governo ordenou
homens de farda avançarem
sobre os estudantes petulantes.
Cassetetes batem contra os escudos
para impor o ritmo botas pisam forte.
O som da marcha não assombra
o suficiente para romper
a corrente humana.
Cada elo encara resoluto.
Entre os alunos circula
impresso de forma artesanal
um manual que ensina
a reescrever os pulmões:
querê-los amplos onde o vento
invente vozes ao percorrer a verde
lâmina das folhas
soe sábio sobre as superfícies
sopre intenso anunciando tempestades.
cerâmica branca
interrogo teu discurso
de assepsia
possibilidades: ler-te
ossos limpos de lembranças
página à espera das palavras
silenciosa face das nuvens
desritmo lançado
contra tua quietude
queda o esperma
fosse sangue
fosse merda
soariam
outras vozes
apazigua pousar a pele
sobre a superfície reptícia
amaina a temperatura
arrefece a febre
cerâmica branca
quase esqueço
que feres meu olhos
ao refletires o sol
somando-o aos conselhos
da busca por iluminação
pureza absoluta
ascese e outras
analogias que
sugeres
todas as manhãs
interrogo teu discurso
de assepsia
possibilidades: ler-te
ossos limpos de lembranças
página à espera das palavras
silenciosa face das nuvens
desritmo lançado
contra tua quietude
queda o esperma
fosse sangue
fosse merda
soariam
outras vozes
apazigua pousar a pele
sobre a superfície reptícia
amaina a temperatura
arrefece a febre
cerâmica branca
quase esqueço
que feres meu olhos
ao refletires o sol
somando-o aos conselhos
da busca por iluminação
pureza absoluta
ascese e outras
analogias que
sugeres
todas as manhãs
Ouço o aço
das palavras
ainda silenciosas.
Impeço-as de soar
ensurdecedoras
como lâminas ao sol.
Sombras suavizam
sua afilada fome.
O faquir domina a arte
de não ferir-se
ao estender o corpo
sobre a indocilidade.
A faca sendo
instrumento cotidiano
faz-se extensão do homem.
Divide com fidelidade
o pão, a laranja.
Permanecem intactos
os pulsos daquele
que a empunha surdo
ao aço das palavras.
das palavras
ainda silenciosas.
Impeço-as de soar
ensurdecedoras
como lâminas ao sol.
Sombras suavizam
sua afilada fome.
O faquir domina a arte
de não ferir-se
ao estender o corpo
sobre a indocilidade.
A faca sendo
instrumento cotidiano
faz-se extensão do homem.
Divide com fidelidade
o pão, a laranja.
Permanecem intactos
os pulsos daquele
que a empunha surdo
ao aço das palavras.
Árvores estendem sombras sobre o percurso. Os pés leem a superfície imperfeita. Caminhamos sem pressa. Não medras a impiedosa beleza das palavras ao dizeres inocente que gosta do barulho dos passos esmagando as folhas secas.
Tons do ocaso cobrem o chão. Adormece o vermelho nas folhas caídas. Amarelo, alaranjado rajam o verde. Pequenas chagas.
Passos. Agora é impossível compreendê-los estilhaçando o silêncio, ferindo-o fatalmente. Inventam uma voz para o silêncio. Alçamos o ruído à sonora existência dos pássaros.
Dia 06 de novembro na biblioteca pública Rubens do Amaral em Araçatuba/SP recebi a premiação pelo primeiro lugar no 23° Concurso de Poesia Osmair Zanardi, promovido pela Academia Araçatubense de Letras. Compartilho aqui imagens da premiação onde estou junto com minha filha Letícia e o poema contemplado:
sabe dos que se salvaram:
sabe dos que se salvaram:
permaneceram na superfície
do avesso sabe o balé das algas
os peixes de olhos sempre acesos
movendo-se sem ferir o silêncio
resta na pele que emerge
sal e cheiro de mar
inscrito no homem
o pugilismo das marés
crianças desenham crânios
sobre ossos cruzados
porque a palavra
permanece indócil
a escrita parece à deriva
não ao acaso o fluxo
conduz por signos marinhos
o poema impele: submergir
sem escafandro
confiar no
próprio fôlego
ensina o extremo: transformar
mergulho em naufrágio
do avesso sabe o balé das algas
os peixes de olhos sempre acesos
movendo-se sem ferir o silêncio
resta na pele que emerge
sal e cheiro de mar
inscrito no homem
o pugilismo das marés
crianças desenham crânios
sobre ossos cruzados
porque a palavra
permanece indócil
a escrita parece à deriva
não ao acaso o fluxo
conduz por signos marinhos
o poema impele: submergir
sem escafandro
confiar no
próprio fôlego
ensina o extremo: transformar
mergulho em naufrágio
Dia 16 de novembro à noite faleceu meu avô Ervim André Kulczynski. Compartilho aqui pois um dos meus poemas mais conhecidos, que também foi escolhido para participar da exposição Poesia Agora organizada no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo teve-o como motivação, escrito a partir das palavras que pronunciou para expressar sua cegueira: "estou na penumbra". Publico também uma belíssima imagem que revela características marcantes em minha memória: o uso da boina, o modo elegante de vestir-se. Divido aqui esta mínima homenagem.
Quatro poemas de Leopoldo María Panero. Traduzidos da obra Así se fundó Carnaby Street (1970)
A MATANÇA DO DIA DE SÃO VALENTIN.
King Kong assassinado. Como Zapata. Por que não Maiakovski? Ou inclusive Pavese. A maldição. A noite de tormenta. Dies irae. A mentira de Goethe antes de morrer. As trinta moedas. A sombra da forca. Marina Tsvetaeva teu epitáfio será a imensa pradaria coberta de neve.
LA MATANZA DEL DÍA DE SAN VALENTÍN
King-Kong asesinado. Como Zapata. ? Por qué no, Maiacovsky? O incluso Pavese. La maldición. La noche de tormenta. Dies irae. La mentira de Goethe antes de morir. Las treinta monedas. La sombra del patíbulo.. Marina Cvetaeva tu epitáfio serán las inmensas praderas cubiertas de nieve.
XVIII
Aquela tarde que fui ao balé russo. Meu pai me levava pela mão. Seu riso parecia com a morte. Ou era ele quem parecia com a morte? As cinzas da maconha são brancas. Isto, claro, não se aprende na escola.
XVIII
Y aquella tarde que fui al bellet ruso. Mi padre me llevaba de la mano. Su risa se parecía a la muerte.?O era él quien se parecía a la muerte? Las cenizas de la marihuana son blancas. Esto, claro, no se aprende en la escuela.
XXIX
As Damas da Caridade se dedicavam a engaiolar rouxinóis, para que deixassem de cantar, uma morte lenta, e assim fazer colares com seus pequenos ossos brilhantes.
XXIX
Las Damas de la Caridad se dedicaban a enjaular ruiseñores, para que dejaran de cantar, y una muerte lenta, y así hacerse collares con sus huesos brillantes.
HOMENAGEM A CARYL CHESSMAN
"As câmaras de gás que são utilizadas nos Estados Unidos para executar as sentenças de pena capital funcionam, em linhas gerais, da seguinte maneira: mediante a ação de uma alavanca caem quatro bolas de cianeto em um depósito de ácido, gerando o gás. A morte é instantânea."
HOMENAJE A CARYL CHESSMAN
"Las cámaras de gas que se utilizan en los Estados Unidos pára ejecutar las sentencias de pena capital funcionan, en líneas generales, de la siguiente forma: mediante la acción de una palanca caen cuatro bolas de cianuro a un depósito de ácido, generando el gas. La muerte es instantânea."
Poema do venezuelano Rafael Cadenas, obra Intemperie, 1977.
ARS POETICA
Que cada palavra leve o que diz.
Que seja como o tremor que a sustém.
Que se mantenha como um latido.
Não vou proferir adornada falsidade nem pôr tinta
duvidosa ou acrescentar brilho ao que é.
Isso obriga a ouvir-me. Estamos aqui para dizer
verdades.
Sejamos reais.
Quero exatidões aterradoras.
Tremo quando creio que me falsifico. Devo reconhecer
minhas palavras. Me possuem tanto quanto eu a elas.
Se não vejo bem, diga, tu que me conhece, minha mentira,
acuse a impostura, me esfregue na cara a fraude.
Te agradecerei, juro. Enlouqueço por ser correspondido.
Seja meus olhos, me espere na noite e me aviste, examine,
me sacuda.
ARS POETICA
Que cada palabra lleve lo que dice.
Que sea como el temblor que la sostiene.
Que se mantenga como un latido.
No he de proferir adornada falsedad ni poner tinta dudosa
ni añadir brillo a lo que es.
Esto me obliga a oírme. Pero estamos aquí para decir
verdad.
Seamos reales.
Quiero exactudes aterradoras.
Tiemblo cuando creo que me falsifico. Debo llevar en peso
mis palavras. Me poseen tanto como yo a ellas.
Si no veo bien, diime tú, tú que me conoces, mi mentira,
señálame la impostura, restriégame la estafa.
Te lo agradeceré, en serio. Enlouquezco por corresponderme.
Sé mi ojo, espérame en la noche y divísame, escrútame,
sacúdeme.
Tradução de Gustavo Petter.
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