soando sob
cada passo
olhas secas
fazem pisar
com delicadeza
ao poema importa
como os outros
animais veem
o mesmo poente
que vejo agora
e sinto lírico
declínio
não se
dilui
no azul:
insular
acolhe
olhos
à deriva

escre
vê-la
nuvem
não demove
a dúvida

nem sempre
há tempo
pra ler
o lento
percurso
ao vento

o poema
nos liberta
desse cálculo
   A melhor forma de homenagear o grande poeta Nicanor Parra, falecido hoje aos 103 anos, é republicar os poemas Autorretrato e A Víbora que traduzi e postei aqui no blog e um que escrevi em sua homenagem. A poesia permanece, grande Nicanor!

Autorretrato

Considerem rapazes 
Este sobretudo de frade mendicante:
Sou professor em uma escola obscura,
Perdi a voz ministrando aulas.
(Depois de tudo ou nada
Faço quarenta horas semanais).
O que diz a vocês minha cara esbofeteada?
Verdade que inspira lástima mirar-me!
O que sugerem estes sapatos católicos
Que envelheceram em vão.

Em matéria de olhos, a três metros
Não reconheço minha própria mãe.
O que me sucede? -Nada!
Os arruinei ministrando aulas:
A luz baça, o sol,
A venenosa lua miserável.
E tudo para que!
Para ganhar um pão imperdoável
Duro como a cara do burguês
Com cheiro e sabor de sangue.
Para que nascemos como homens
Se nos dão uma morte de animais!

Pelo excesso de trabalho, as vezes
Vejo formas estranhas flutuarem,
Ouço correrias loucas,
Risadas, conversações criminosas.
Observem estas mãos
As faces pálidas de cadáver, 
Os escassos cabelos que me restam.
Estas negras rugas infernais!
Sem embargo fui igual a vocês,
Jovem, pleno de belos ideais
Sonhei fundindo o cobre
E limando as faces do diamante.
Aqui me encontro hoje
Atrás dessa mesa desconfortável
Embrutecido pelo ritmo
Das quinhentas horas semanais.





A víbora.

Durante longos anos estive condenado a adorar uma mulher depreciável
Sacrificar-me por ela, sofrer humilhações e troças sem conta.
Trabalhar dia e noite para alimentá-la e vestir,
Levar a cabo alguns delitos, cometer algumas faltas,
À luz da lua realizar pequenos roubos,
Falsificações de documentos comprometedores,
Sob pena de cair em descrédito ante seus olhos fascinantes.
Em dias de mútua compreensão percorríamos os parques
E nos fotografávamos navegando uma lancha a motor,
Íamos a um bar com música ao vivo
Onde nos entregávamos a uma dança desenfreada
Que se prolongava até altas horas da madrugada.

Longos anos vivi prisioneiro dos encantos daquela mulher
Que costumava chegar ao meu escritório completamente nua
Executando as contorções mais difíceis de imaginar
Com o propósito de incorporar minha alma à sua órbita
E, sobretudo, para me extorquir até o último centavo
Proibia estritamente de me relacionar com minha família
Os amigos eram separados de mim mediante acusações difamadoras
Que a víbora publicava em um jornal de sua propriedade
Apaixonada até o delírio não me dava um instante de trégua,
Exigindo peremptoriamente que beijasse sua boca
E que respondesse prontamente a suas néscias perguntas
Várias delas referentes à eternidade e à vida futura
Temas que produziam em mim um lamentável estado de ânimo,
Zumbidos nos ouvidos, repetidas náuseas, desalentos prematuros
Que ela sabia aproveitar com o espírito prático que a caracterizava
Para se vestir rapidamente sem perda de tempo
E abandonar a sala me deixando com a cara no chão.

Esta situação se prolongou por mais de cinco anos.
Por um tempo vivemos juntos num quarto
Que dividíamos em um bairro de luxo perto do cemitério
(Algumas noites tivemos que interromper nossa lua de mel
para enfrentar as ratazanas que invadiam pela janela).
Levava a víbora um minucioso livro de contas
Onde anotava até o mínimo centavo que eu pedia emprestado;
Não me permitia usar a escova de dentes que eu mesmo a havia dado
E me acusava de ter arruinado sua juventude:
Lançando chamas pelos olhos me levava a comparecer perante o juiz
E pagar dentro do prazo estipulado parte da dívida
Pois ela necessitava do dinheiro para prosseguir seus estudos
Então tive que sair às ruas e viver da caridade alheia,
Dormir nos bancos das praças,
Onde fui encontrado moribundo muitas vezes pela polícia
Entre as primeiras folhas do outono.
Felizmente aquela situação não durou muito,
Porque certa vez em que me encontrava em uma praça também
Posando diante de uma câmera fotográfica
Umas deliciosas mãos femininas me vendaram súbito os olhos
Enquanto uma voz amorosa perguntava sabes quem é.
És tu meu amor, respondi com serenidade.
Anjo meu, disse ela nervosamente,
Permita que me sente em teus joelhos uma vez mais!
Então pude perceber que ela usava apenas uma pequena
                                               calcinha.
Foi um encontro memorável, ainda que pleno de notas dissonantes:
Me comprou um terreno, não distante do matadouro, exclamou,
Ali penso em construir uma espécie de pirâmide
Onde possamos passar os últimos anos de nossas vidas.
E já terminei meus estudos, me formei advogada,
Disponho de um bom capital;
Dediquemo-nos a um negócio produtivo, nós dois, meu amor, agregou,
Longe do mundo construamos nosso ninho.
Basta de sandices, repliquei, teus planos me inspiram desconfiança,
Lembra que de um momento a outro minha verdadeira mulher
Pode deixar-nos a todos na miséria mais espantosa.
Meus filhos já estão crescidos, o tempo transcorreu,
Me sinto profundamente esgotado, deixe-me repousar um instante,
Traga-me um pouco de água, mulher,
Consiga-me algo para comer, qualquer coisa,
Estou morto de fome,
Não posso trabalhar mais para ti,
Tudo está acabado entre nós.









A poesia permanecerá
antiga árvore
cujas raízes beberam
o dilúvio
águas que diluem
o sêmen dos deuses

O espírito do poeta
completa um século
imerso na arquitetura
de carne e ossos

A poesia permanece
frondosa árvore
cujas folhas traduzem
o que o vento ecoa
palavras próximas
ao ritmo puro

Ritmo puro:
ondas desfazendo-se
sobre as areias
de Isla Negra

O século é um ciclo
O círculo perfeito
não simboliza a poesia
Nicanor o atravessa
corpo lunar dividindo-se
entre luz e trevas
Que flua ininterrupto
com ritmo calmo
para apaziguar as formas
Flua com paciência
para polir as superfícies
Soe suave ao fluir
para sem temor
nos sentarmos 
às suas margens
e o olhar compreender
o movimento
                                                                 Para Viviana

A fotografia o fez observar luz e sombra
Os próprios passos o fizeram 
percorrer o claro e o escuro
Da poesia palavras atearam 
significados luminosos
e significados noturnos
A compreensão fora assim construída
pensa nomeá-la versos do recomeço
com impecável caligrafia escrevê-los
na brancura dos ossos
na porta da geladeira
para todos os dias reler
que há lirismo no preto e branco
ao retratar o cotidiano
mas precioso é buscar
de mãos dadas
apenas caminhos acesos
dentro do olho é presença
não com a consistência 
da pedra com a 
esperança da semente
o silêncio do caroço
a quietude do osso

como a palavra
que permanece
à espera no poeta

é presença que exala
convoca pássaros
de bico afilado 
propício para 
romper a casca
transpassar a polpa
dentro do olho
buscar a lembrança

   Traduções do poeta espanhol Leopoldo María Panero que realizei para o blog português Poesia, vim busca-te.


SERENIDADE
               A Martin Heidegger

Há somente duas coisas: meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência somente se acende
quando o ser está contra ela:
é assim que todo conhecimento
e a matriz de toda figura
é uma ferida,
e somente é imortal
o que chora.
A noite, mãe da sabedoria
tem a forma inacabada do pranto.

******************

A luz, a luz
quando estava muito perto do mar
limite do deserto
do deserto em que florescem as rosas cruéis
famélicas do homem.

*******************

As palavras
constroem o bosque
uma árvore é somente uma árvore
quando tocada pelo poema.

*******************

Os sinos varrem o som
anunciam letra a letra o deserto
em que uma flor apodrece entre as mãos murchas
                                          de uma velha
que chora por haver perdido seu nome.


SERENIDAD
            A Martin Heidegger
Sólo hay dos cosas: mi rostro desfigurado
y la dureza de la piedra.
La conciencia sólo de enciende
cuando el ser está contra ella:
y es así que todo conocimiento
y la matriz de toda figura
es una herida,
y sólo es inmortal
lo que llora.
Y la noche, madre de la sabiduría
tiene la forma inacabable del llanto.

***
La luz, la luz
cuando estaba demasiado cerca del mar
límite del desierto
del desierto en que florecen las rosas crueles
hambrientas del hombre.

***
Las palabras
construyen el bosque
un árbol es sólo un árbol
cuando lo toca el poema.

***
Las campanas barren el sonido
enuncian letra a letra el desierto
en que una flor se pudre entre las manos ajadas
                                      de una vieja
que llora de haber perdido su nombre.


HINO A SATÃ

Somente a neve sabe
a grandeza do lobo
a grandeza de Satã
vencedor da pedra desnuda
da pedra desnuda que ameaça o homem
que invoca em vão a Satã
senhor do verso, desse agulheiro
na página
por onde a realidade
cai como água morta.

HINO A SATÃ (2ª versão)

A grandeza do lobo
não é a penumbra
nem o ar
é somente o fulgor de uma sombra
de um animal ferido no jardim
à noite, enquanto tu choras
como no jardim um animal ferido.

HINO A SATÃ (3ª versão)

Os cães invadem o cemitério
e o homem sorri, inquieto
ante o mistério do lobo
e os cães invadem a rua
em seus dentes brilha a lua
mas nem tu nem ninguém, homem morto
espectro do cemitério
saberá se aproximar amanhã nem nunca
do mistério do lobo.

HIMNO A SATÁN

Sólo la nieve sabe
la grandeza del lobo
la grandeza de Satán
vencedor de la piedra desnuda
de la piedra desnuda que amenaza al hombre
y que invoca en vano a satán
señor del verso, de ese agujero
en la página
por donde la realidad
cae como agua muerta.

HIMNO A SATÁN (2ª versión)

La grandeza del lobo
no es la penumbra
ni aire
es sólo el fulgo de una sombra
de un animal herido en el jardín
de noche, mientras tú lloras
como en el jardín in animal herido.

HIMNO A SATÁN (3ª versión)

Los perros invaden el cementerio
y en hombre sonríe, extrañado
ante el misterio del lobo
y los perros invaden la calle
y en sus dientes brilla la luna
pero ni tú ni nadie, hombre muerto
espectro del cementerio
sabrá acercarse mañana ni nunca
al misterio del lobo.
















escrever: na ostra
molusco oculto
limítrofe entre
o asco e o raro
de acordo com
o paladar demonstra
a relação do criador
com a obra

a mosca 
é obra

e também 
vertiginosa
velocidade
das asas
invisíveis em 
pleno voo
reescrevendo
a mosca
estrela negra
suspensa no 
céu da sala

tudo é obra

resta ao poeta
que passeia
pelos arredores
de Paris ouvir
a constelação
zumbir sobre
a obra e compor 
a sua trazer
ao poema
o lirismo
da carniça

criador
é também
obra