A pesada estrutura do viaduto 
reescreve com lirismo 
luz e sombra sobre 
duas prostitutas
e um travesti

Goya gozaria
esse claro escuro
Hopper comporia
com primor o 
crepúsculo humano
Baudelaire louvaria
o poder da pintura
ao sublimar a ruína
que o céu assiste mudo

No mesmo percurso
de indócil beleza
há ainda versos
para os olhos abertos
do cachorro morto
visto quilômetros
depois do viaduto

   Não segura pela asa. Quatro longos dedos, na infância a mãe dissera serem de pianista, transpassados pelo branco arco e o polegar isolado no outro extremo enlaçam a xícara de café com leite. Assim a palma lê o calor da superfície. Quente a cerâmica, mas não o suficiente para desenlaçar o toque. Durante o último gole percebe o montinho de açúcar acumulado no fundo. Formigas assomarão em breve. Ainda assim, pousa a xícara no chão. Palavras inquietas dentro de si: insubordinado sob o peso da túnica o pau duro reage às imagens noturnas que relembram a santo Agostinho a antiga libertinagem. 
   Cerveja preta, três vasos de violeta e um kalanchoe alaranjado no carrinho de compras da velhinha a minha frente na fila do supermercado. A espera poderia nos conduzir a conversar. Possibilidades diversas a deriva. Como para mim tudo é literatura, perguntaria se na pouca quietude que o dia nos reserva, convivera com Emma Bovary, Capitu ou Diadorim. Palavras podem nos oferecer a intimidade romanceada dos diários e autobiografias: percebi com melancolia o fluir do tempo quando a melanina dos pentelhos começou a se esvair. Eu lembraria do sopro impuro que ergueu por um átimo a saia da avó, revelando a resistente nódoa negra do sexo. Limitei-me a respeitar o ritmo da fila,  calcular mentalmente o valor da compra, demorando o olhar sobre seus olhos que as pálpebras modelavam num triângulo retângulo. Luminosidade intacta sob delicados óculos. A sabedoria dança ao redor como tentáculos ou os braços de shiva. Apêndices agregados ao corpo: saber que a presa é também predadora de alguma outra espécie e nem por isso trazem pânico ao passear livre pelas cidades ou deixam de excitar as crianças. 
no fundo do quintal
o cacto se reescreve
em árvore de tão alto

ventos e temporais
sopraram fortes
o corpo cacto
jamais caíra

não por isso
menos indócil
nesse meu
poema menor

vizinha ao cacto
a lavoura do avô
Ervim que nunca
lera Manuel Bandeira
e cultivava aipim
e batata doce
raízes comestíveis
como a memória
que deve ser
triturada pelos dentes
reescrita na língua

o poema-diálogo
o poema-homenagem
o poema-poema
tateia sem medo
a imagem intratável

destemor semelhante
ao do bambuzal
assoviado dia e noite
sobre a afilada

quietude do cacto            
Palavra alguma
dos meus lábios
Amanhecer in
suficiente para
despertar pássaros

Com um amigo
ex-monge beneditino
conversamos sobre
o voto de silêncio
Concordamos que
a superfície é muda
mas dentro palavras
não se aquietam
sobretudo nos poetas

Eu agora calado
estranho prazer
em pensar: os lábios
calam o declínio
dos dentes por
ser filho dileto
jesus cristo teria
todos os dentes
aos trinta e três?
Agrada-me a imagem
dos caninos pelo
vínculo mantido
com os grandes
e pequenos
predadores

Outro fôlego:
recordo uma lição
aprendida na infância
a intensidade do sopro
para despetalar com
maior beleza
o dente-de-leão


Vínculo: vinco. Linha traçada a nanquim. Avesso das palavras acesas. Olhos buscam o silêncio do traço negro. Fosse palavra sobre a página soaria. O vínculo: um vinco. Espécie de cicatriz escrita na superfície lunar. Outro lugar não oferece repouso à língua tonta de tanta luz. O objeto já não deve ser descrito como intacto. A verdade das mãos. O ato necessário para criar o vínculo. O golpe que inscreve o vinco.
Tente  instante intacto. Sustente as pálpebras. Aguente firme sem piscar. Atente. Atenção total. Animal (in)quieto. Não é fácil capturar o momento exato em que a metáfora eclode. Então olhos abertos sobre os meus. Ininterrupto. A erupção: palavras recém conectadas erigem-se à superfície. A metáfora é indócil, pode soar desconexa, difícil ao olhar cotidiano. Então olhos abertos sobre os meus. Debruçados no parapeito flertam a queda. Impostante perceber e registrar as reações orgânicas: alterações nas pupilas, íris, globo ocular. Assim como sabemos quem chorou escondido, está chapado ou triste. Assim como lemos a loucura, a paixão. Anotar tudo antes que os olhos fechem-se sobre as imagens do tipo: o cardume de afogados fere a quietude azul.
vento forte
movimenta 
as folhas

aquém 
dos vidros
olhos leem
a mímica
das árvores

a dúvida:
há fôlego
suficiente
para gritar
a palavra
pássaro
até aquele
galho mais
distante?

uma só
janela
aberta
já é sopro
e rumor
contra o
silêncio






para Ferreira Gullar

Na mesma manhã
de domingo vi 
a caixa verde escuro
onde as bananas
impróprias para
o consumo
morriam ocultas
exibidas apenas
as intactas e coloridas
de verde ou amarelo
amenos porque
o podre é impalatável
para os olhos 
do consumidor
Todo percurso
do supermercado
à minha casa
ainda que o altere
não conduz a
nenhuma quitanda
onde talvez 
bananas exalem
e a lógica poética
me faça ouvir
o amadurecer
em voz alta
Isso tudo antes
de chegar e saber
sobre a morte do poeta
Olhos tateando a estante
buscam em mim
memórias poéticas
inscritas pelos versos
do poeta morto:
olor de fruta
cheiro de vagina
desoladora beleza
ao versar a morte
E outras lembranças
inaudíveis num
dia comum:
o sarau na faculdade
quando recitei
poemas teus
optei pelo tema
da morte
porque dialoga
comigo que
fracassei no suicídio
Também cada livro
com tua poesia
que habita o apartamento
tem história: dois
chegaram com cheirinho
de novo dados pelo pai
outro já manchado
de poeira encontrado
no sebo e há
os roubados
da biblioteca
Pensar em ti poeta
evoca o poema da
Wislawa Szymborska
sobre o gato no 
apartamento vazio
Como estarão
agora teus gatos
entre tantos livros
obras de arte
e ausência definitiva?
Para eles não és poeta
mas são eles poesia
na tranquila modorra
sobre a escrivaninha
na provisória existência
azul safira
Fui ao teatro
na noite anterior
a nudez encenada
transitava pelo escatológico
para indagar o espectador 
sobre os próprios limites
imagem que ainda
me percorria
na manhã de domingo
corrente elétrica
em busca de tradução
Tua morte poeta
apagou o ontem
esculpe o agora
na bela superfície lunar
de um pedaço
de osso polido
O dia pede
um poema sujo
de muitas vozes
e memórias
tessitura viva
embora o estopim
seja a morte
Digo para minha filha
meu poeta preferido morreu
e mostro teus livros
na estante
ângulos retos
apaziguados
por tantas releituras

escrito em 04 de dezembro de 2016.

Poemas da colombiana Piedad Bonnett que traduzi a convite do editor do blog português Poesia, vim busca-te.


À borda.

Terrível é a borda, não o abismo.
Na borda
há um anjo de luz no lado esquerdo,
um longo rio escuro no direito
e um estrondo de trens que abandonam os trilhos
rumo ao silêncio.
Tudo
quanto treme na borda é nascimento.
Somente da borda vê-se a luz primeira
o branco-branco
que nos cresce no peito.
Nunca somos mais homens
que quando a borda queima nossas plantas desnudas.
Nunca estamos mais solitários.
Nunca somos mais órfãos.



EN EL BORDE

Lo terrible es el borde, no el abismo.
En el borde
hay un ángel de luz del lado izquierdo,
un largo río oscuro del derecho
y un estruendo de trenes que abandonan los rieles
y van hacia el silencio.
Todo
cuanto tiembla en el borde es nacimiento.
Y sólo desde el borde se ve la luz primera
el blanco -blanco
que nos crece en el pecho.
Nunca somos más hombres
que cuando el borde quema nuestras plantas desnudas.
Nunca estamos más solos.
Nunca somos más huérfanos.




O REAL

NUNCA PERGUNTES PELA HISTÓRIA REAL
MARGARET ATWOOD



Nunca perguntes pela história real.

A realidade, já sabes, está sempre
mais além dos feitos,
mais aquém da sombra que cresce nas palavras.
Como esses reflexos de quando éramos pequenos
que morriam ao nascer em nossas mãos
deixando-nos desiludidos.

Ademais,
uma história não o é até ser contada.
Se vivida foram pedaços de tempo que enleamos,
contada é ramo seco
que colhemos do gelo coalhada de cristais.

Não perguntes
pela história real:
nunca teve voz o deus que a conhece.



LO REAL

NUNCA PREGUNTES POR LA HISTORIA REAL
MARGARET ATWOOD



Nunca preguntes por la historia real.

La realidad, ya sabes, está siempre
más allá de los hechos,
más acá de la sombra que crece en las palabras.
Es como esos reflejos que cuando éramos niños
morían al nacer en nuestras manos
dejándonos burlados.

Por lo demás,
una historia no es tal hasta que no se cuenta.
Si vivida fue trozos de tiempo que anudamos,
contada es rama seca
que sacamos del hielo cuajada de cristales.

No preguntes
por la historia real:
nunca ha tenido voz el dios que la conoce.


   Roberto Bolaño considerava-se sobretudo poeta, embora tornado fenômeno editorial por suas obras em prosa que ,irônica ou sinceramente, disse ter escrito para sustentar a si e sua família. A poesia e os poetas, seus companheiros de infrarrealismo são personagens de suas narrativas. Lendo a obra Los perros románticos, me deparei com esse poema. A realidade é propícia para poemas provocativos, que fustiguem as feridas. A situação política em que todos estamos imersos, reflete o crescente conservadorismo: candidatos de direita eleitos com folga, o mundo masculino-machista impondo-se, a religião misturando seus valores com a política, semelhante a tempos sombrios, atitudes anti-democráticas, a população como ponto inicial dos cortes e congelamentos em prol da situação econômica. Regressos. 
   A poesia sabe cumprir seu papel. 
   A poesia tem voz indócil.
   É claro, a boa poesia, consciente da época, do que a circunda.
   Esse poema é um exemplo, muitas feridas são tocadas: tradição literária, verdades religiosas, o eu-lírico inquieto, carrega para a poesia o humano, sem sublimar, irônico. 







ERNESTO CARDENAL E EU.

Ia caminhando, suado e com o cabelo grudado
na cara
quando vi Ernesto Cardenal que vinha
na direção contrária
como saudação lhe disse:
Padre, no Reino dos Céus
que é o comunismo,
tem um lugar para os homossexuais?
Sim, disse ele.
E os masturbadores impenitentes?
Os escravos do sexo?
Os brincalhões do sexo?
Os sadomasoquistas, as putas, os fanáticos
por enemas,
os que já não podem mais, os que de verdade
já não podem mais?
E Cardenal disse sim.
Então levantei os olhos
e as nuvens pareciam
sorrisos de gatos levemente rosadas
e as árvores que costuravam a colina
(a colina que hemos de subir)
agitavam os ramos.
Árvores selvagens, como dizendo
algum dia, mais cedo que tarde, hás de vir
a meus braços viscosos, a meus braços sarmentosos,
a meus braço frios. A frieza vegetal
que te arrepiará os pelos. 



ERNESTO CARDENAL Y YO

Iba caminando, sudado y con el pelo pegado
en la cara
cuando vi a Ernesto Cardenal que venía
en dirección contraria
y a modo de saludo le dije:
Padre, en el Reino de los Cielos
que es el comunismo,
¿tienen un sitio los homosexuales?
Sí, dijo él.
¿Y los masturbadores impenitentes?
¿Los esclavos del sexo?
¿Los bromistas del sexo?
¿Los sadomasoquistas, las putas, los fanáticos
de los enemas,
los que ya no pueden más, los que de verdad
ya no pueden más?
Y Cardenal dijo sí.
Y yo levanté la vista
y las nubes parecían
sonrisas de gatos levemente rosadas
y los árboles que pespunteaban la colina
(la colina que hemos de subir)
agitaban las ramas.
Los árboles salvajes, como diciendo
algún día, más temprano que tarde, has de venir
a mis brazos gomosos, a mis brazos sarmentosos,
a mis brazos fríos. Una frialdad vegetal
que te erizará los pelos.


  Reportagem publicada no jornal Folha da Região de Araçatuba/SP no domingo 16/10/16, sobre a abertura do concurso de poesias Osmair Zanardi. 
lento percurso

tão leve
soletra o vazio
não posso escrevê-lo
queda livre

em concha a palma
da mão ampara
a pluma

excita pensá-la:
pássaro fragmentado

sobre os que amo
demoro meus olhos
castanho claros onde
a maré da memória
trouxe à margem
uma baleia morta
nadadeira direita
quase desmembrada
silencioso ventre 
branco acinzentado
sob o azul sem nuvens

os que amo mergulham
com escafandro o turvo
mar que avança e recua
a linha de espuma
inquietando naufrágios


colheu do chão 
uma casa de caracol 
desabitada

reconheceu nela
importância suficiente
para ser guardada
na antiga caixinha de joias

também colhida
do abandono
dezenas de pássaros pousam (re)voam 
anônimos diante dos olhos: não estes
um pombo um pardal mortos duas
visões estrangeiras no corpo da manhã

silenciaram as asas em pleno voo traçando
uma parábola descendente reescrevendo
o voo queda talvez apagada a minimalista
engrenagem imersa na sombra das folhas
enquanto adormecem as horas azuis
interrogações que não anseiam respostas 

enfim, os olhos colhem aqueles mortos
e buscam asilo nas primeiras luzes
latentes na palavra: manhã

a cinza do cigarro sustenta-se 
horizontal e cilíndrica por 
um tempo muito curto

levitar é metáfora
que sacraliza a ereção

cigarro aceso e pau duro 
emanam uma espécie de febre
reescrevem a hora escura

todo tempo é breve
comparado à vida
sob a dor limite os 
minutos tornam-se eternos

no poema
a palavra
é larva
posta pela
mosca na
ferida aberta

tempo inestancável
mosaico de brevidades
pensá-lo enquanto
o pulso retoma
um ritmo calmo
gotas de suor
resfriam a pele
e não mais 
vivo o vício
pensá-lo por
enquanto é indolor

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               










Primeira urina da manhã
colhida para exames        
laboratoriais

A análise estrutural
quantifica elementos
constitutivos compara-os
com padrões ideais
investiga a presença
insólita vestígio
de enfermidade

Níveis de normalidade
não são espelho
para a poesia
A metáfora dos poetas
denuncia a doença
de toda uma época
passada ou futura

A urina é signo
amarelo esmaecido
colore a lágrima
cristalina

Nos versos de García Lorca
Nova Iorque é uma multidão
que vomita e urina

Com passo extremo
fluxo indócil
Leopoldo María Panero
urina das ruas
até os pés 
de sua mãe

Há líquidos humanos
sangue sêmen
mijo vômito
menstruação     
compondo desenhos
nas paredes
dos escuros
manicômios 

A partir das nódoas
podes imaginar
imagens de animais
ou outras formas
como nas nuvens            
Lendo Leopoldo
Maria Panero
compreendi
o ritmo da língua 
através das blasfêmias

Crânio de um anão
transpassado no ânus
do mais belo anjo

ao redor a legião
chora palavras
por clemência
mas o poeta escreve
odes sujas de fezes 
e sangue na brancura
dos ossos

o corpo segue ébrio
entregue ao empuxo
da linguagem


Deus
silencioso



Imagem feita por Gustavo Petter. Muro do cemitério municipal, Araçatuba/SP.




li Joseph Brodsky 
louvar o olor de algas
da gelada noite veneziana

recordo enquanto percorro
com olhos fechados 
cada meandro do corpo